30/11/2012

Os dias de chuva entristecem-me

Os dias de chuva entristecem-me. Não porque haja uma tradição literária e sentimental de desgraça e desapego a eles associados, mas porque os momentos tristes da minha vida aconteceram em dias de chuva, por extensão, em dias de inverno. Factos reais concorreram com a ficção, como se uma e outra fossem indissociáveis e tão verdade que por nada se negariam. É nesta certeza que volto a Wilde e à sua afirmação de que, qualquer coisa como isto, a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.

Por isso, os dias de chuva entristecem-me. Uma lembrança chama outra que chama outra e por aí fora, espirais de memórias de acontecimentos passados trazidos à luz por um mesmo sentir. Não conservo ilusões. Não há dores que se sintam em compartimentos estanques: agora esta, agora aquela, agora a outra. Não, elas são uma só a levarem-me a um patamar superior de sofrimento. Sentir uma perda é sentir todas as perdas. Chorar uma morte é chorar todas as mortes. Quebrar ao peso da saudade é quebrar ao peso da saudade inteira, feita de saudades mínimas. 

Este dia de chuva está a entristecer-me. Mesmo que esteja abrigada da chuva, mesmo que cá dentro esteja quente. Há uma chuva miúda de desapego que me encharca a roupa. Há uma corrente de ar frio que me arrefece os pés. Todos os meus fantasmas, vivos e mortos, se sentaram comigo, respiram por cima do meu ombro, leem com atenção tudo o que escrevo. Nem eles querem estar aqui, mas voltam sempre, pelo prazer de me mortificarem. 

A chuva cai lá fora. Creio que os céus estão solidários comigo.

29/11/2012

Eu que me apaixono por tudo e por nada


Eu, não, a personagem deste livro, espécie de marialva desgraçadinho a quem tudo acontece: amores impossíveis, paixões assolapadas e contrariedades só ao nível dos trabalhos de Hércules.

Um homem, assombrado pelos fantasmas do passado, embarca numa viagem…

OK, se isto fosse um livro como deve ser, era mais ou menos assim que devia começar o resumo da contracapa.

Como não é o caso, digamos apenas que “Eu, que me apaixono por tudo e por nada” conta a história de um homem condenado a apaixonar-se uma e outra vez. E mais outra.

Uma maldição que só será quebrada no dia em que encontrar o verdadeiro amor da sua vida. Enquanto esse dia não chega, resta-nos rir com as suas relações desastrosas que, invariavelmente, acabam no hospital, na esquadra ou no meio de um campo de milho a fugir de dançarinos do rancho folclórico sedentos de vingança.

Um livro onde amor e humor se envolvem num inesperado e arrebatador romance que ninguém sabe ao certo se acabará numa separação litigiosa, ou num improvável final feliz.

Como vem aí o Natal e os tempos estão tristonhos, aproveitem para soltar umas gargalhadas (alguns de nervoso por se reverem nas histórias, sou capaz de apostar) e leiam Eu, que me apaixono por tudo e por nada, o autor merece. :) 

Cliquem aqui ou ali no ícone em baixo e façam a vossa encomenda. E sigam no sítio do costume, para se manterem a par das novidades. 

Eu já li e recomendo. *





* PJD, já me podes mandar o cheque. Preferes o NIB?

27/11/2012

O meu aquecedor

devia ter o dom da ubiquidade.
Nunca o tenho onde me é preciso.

Se dúvidas havia sobre a insanidade mental da minha família

Porque Deus joga Sims

Personagens: Rapariga, Irmão bem-apessoado com um quarto de século, Irmão bem-apessoado ligeiramente mais novo.
Local: Quarto da Rapariga.
Tempo: 22h30.

Ato único

 [Rapariga aconchegada nos lençóis e nas mantas, 
preparando-se psicologicamente para uma leitura sobre a morte, 
patrocinada por Inês Pedrosa - Fazes-me falta]


CENA I
(Rapariga, Irmão bem-apessoado com um quarto de século)

[ Irmão... bate à porta e irrompe pelo quarto, 
interrompendo a leitura ]


IRMÃO...

Se Deus joga Sims com a nossa vida, o que acontece se eu tiver um bug?


RAPARIGA

[ levanta os olhos do livro e catrapisca 
de incredulidade ]



CENA II
(Rapariga, Irmão..., Irmão bem-apessoado ligeiramente mais novo)


IRMÃO...
[ repete a pergunta. Encostado ao 
guarda-fatos, simula que caminha ]

Olha, tenho um bug!

IRMÃO... 2
[ Levantando os braços, com os cotovelos 
junto ao corpo, agitando as mãos. 
Imita uma voz histérica ]

Também eu!

RAPARIGA

[ continua de boca aberta, sem saber se ri, 
se chora.  Irmãos saem do quarto, imitando 
avatares presos aos elementos do jogo,
com vozes histéricas ]



Deus Nosso Senhor tem de ter mesmo muita paciência para nos aturar.

26/11/2012

Há dias em que acordo

Happy Day by Alberto Cerriteño


a sentir-me espantosamente feliz.
Hoje é um desses dias. 

23/11/2012

Como eu vejo os problemas de matemática


Ou o estado em que está a minha cabeça.

22/11/2012

Eu que nunca fui mãe


Lembro-me com bastante nitidez da primeira coisa que quis ser quando fosse grande. Tinha três anos quando soube que a minha profissão seria ser mãe. Foi no dia em que disse à minha mãe que não queria o bebé careca, mas queria um bebé de cane, pedido esse devidamente acompanhado de uma birra que terminou comigo a confortar a tristeza, agarrada a um boneco de plástico, com corpo de pano e esponja. Tinha três anos. Depois, quis ser professora e segui todos os níveis: primeiro era o Pré-Primário, depois o 1º ciclo e por aí fora; circulando pelo inglês, a história e o português. Pelo meio uma vontade de ser arqueóloga que nunca foi para a frente por causa dos filmes do Indiana Jones - se tivesse de ficar pendurada nalguma ravina, morria com toda a certeza. Hoje, sou professora de português, do 3º ciclo e do secundário (até provas em contrário), mas não sou mãe. Facto que os amigos e conhecidos não me deixam esquecer.

Não sou mãe, mas tinha sete anos quando nasceu o meu primeiro irmão mais novo, uma espécie de prenda de anos que veio com dois meses certinhos de atraso. Lembro-me da excitação da notícia, lembro-me das horas passadas a mexer na barriga da minha mãe, lembro-me das conversas que tive com Deus porque eu queria uma irmã e Ele tinha de dar um jeitinho para que isso acontecesse. Lembro-me de ter ido com a minha mãe à única ecografia que ela fez e de ter observado com grande indiferença que o coração do bebé parecia uma manada de cavalos a correr. Lembro-me do ar preocupado da minha mãe quando o médico lhe disse "o rapaz tem uns grandes tomates!" e do jeitinho com que o meu pai me perguntou se um irmão também não era bom. E lembro da resposta que dei: se for um menino, eu mato-o. Não matei. Adotei-o para mim e tornei-me na segunda mãe dele. Mas eu não sou mãe.

Com dez anos, nasceu o meu último irmão, também ele uma espécie de prenda, agora para ambos, seis dias mais tarde do que a data de nascimento do piolho mais velho. Nessa altura já me era indiferente, menino ou menina tanto me fazia. Lembro-me das fraldas e dos beijinhos que lhe dava na barriga gorducha; das noites que passei a embalá-lo, antes de o ir levar à minha mãe para ele mamar. Lembro-me das papas e dos cuidados, de correr atrás dos dois que fugiam um para cada lado. Lembro das muitas fotos que lhes tirei, das vezes que perdi a calma, dos meus posters rasgados só porque lhes apeteceu, de acordar de madrugada com a televisão a berrar desenhos animados, de gritar possessa da vida quando vi a minha coleção de bonecos da Disney a derreter na lareira. Lembro-me que levava os trabalhos da escola por fazer, por não ter tido tempo, e de dizer aos professores que não os tinha sabido fazer. Lembro-me também das noites em que lhes dava banho e os levava comigo para a cama, para ver se adormeciam mais rápido e acordar mergulhada num mar quente e com um odor estranho. Lembro-me que a minha infância passou muito rápido e a adolescência foi um ar. Mas eu nunca fui mãe.

Tenho nítido na memória o primeiro dia que viajei de comboio e os levei, eu teria uns doze anos, um dois e o outro cinco. Lembro do medo terrível que tive que eles caíssem para a linha e do alívio que senti quando cheguei ao trabalho da minha mãe. Lembro-me das manhãs na praia e do susto permanente que tinha de os perder, dos copos com leite de chocolate, das bolachas e das bananas passadas em areia - foi nessa altura que aprendi que se pode ir à praia e não ir à água, sem que seja uma tragédia assim tão grande. 

Não consigo esquecer o dia em que lhes disse que o avô tinha morrido e que nesse ano íamos passar a passagem de ano em casa. Duas crianças de cinco e oito anos a estranharem a tristeza à volta delas, sem entenderem a dimensão da perda que todos sentíamos. Lembro-me de os deixar no aeroporto e os ir buscar eufóricos com o que tinham visto, naquelas férias da Páscoa, com a mãe e os tios, no Luxemburgo.

Depois houve os primeiros dias de escola e os trabalhos de casa, os malabarismos para explicar que era um dois três quatro cinco e não um dois três cinco. Houve as quedas, as cabeças partidas, houve férias intermináveis, houve sustos e coisas boas. As perguntas curiosas, os comentários inocentes, os passeios para Lisboa, o ensinar do bom hábito de ter uma mala com tudo e uma carteira para os documentos e o dinheiro. Houve o cuidar-lhes da roupa - a minha mãe perguntava-me de quem era o quê, porque ela se perdia nos tamanhos -, o preparar dos sacos dos equipamentos, o explicar que o desodorizante existia para evitar que eles cheirassem mal e que o usassem a bem da saúde de todos, houve o ensinar como se usava uma lâmina e como é que se fazia o bigode. Houve vacinas e idas ao médico, copos de leite antes de dormir e incontáveis pares de sapatilhas espalhados por todo o lado. Houve os meus meninos a tornarem-se homens, a barba a crescer-lhes, as namoradas a irem e virem, os planos deles a tomarem forma, a emoção de os ver trajados. Houve isto tudo. Eu que nunca fui mãe.

Ainda assim, o meu sonho continua por cumprir-se, 30 anos mais tarde. Eu que sempre pensei que por esta altura teria já uma equipa de futsal em miniatura, que era defensora acérrima de famílias grandes, porque há coisa mais importantes do que uma casa perfeitamente arrumada e roupa nova em todas as estações. Talvez a única coisa que eu soube sempre que queria ser não vá acontecer. Uma parte de mim entristece-se com esta certeza, a outra conforma-se. Acredito que o processo mais difícil é aceitar que houve coisas que quis muito e já não vou poder ter, que a vida me trocou as voltas, que afinal não cheguei lá. Depois de aceitar isto, depois de arrumar o que já não tem sentido, é menos difícil, mais tolerável.

Olho para trás e vejo que não foi tão mau assim, afinal tive-os a eles o que é muito. Há vinte e cinco anos que começou esta aventura. Apesar disso, os amigos que foram pais há um ano, ou dois ou três, continuam a dizer-me que eu não sei o que é ser mãe, que eu nunca experimentei noites sem dormir por causa de um choro que não acaba de forma nenhuma, que eu não sei o que é ter a roupa suja de papa, que eu não sei o que é andar horas com uma criança pequena (e às vezes já não tão pequena assim) ao colo, porque eu nunca fui mãe. Digo que sim, que têm razão, que não sei, que talvez nunca vá saber e sorrio para os deixar tranquilos e de bem com as suas próprias opiniões. "Tu sabes lá o que custa andar sem dormir há meses?". Pois, não sei, é que eu nunca fui mãe.

20/11/2012

Correspondência Íntima - VII

Porque aquilo que apontas como motivo de culpa − a tua extraordinária capacidade de não pressionares as pessoas, nem quereres saber mais do que achas que te é devido − é precisamente a origem do teu encanto.


A única coisa que sei é que parece que não chega e depois é horrível ser assim, porque este dar ar e liberdade é pago por mim em horríveis angústias que não manifesto. Sou eu sozinha a tentar processar as inseguranças, os medos, a saudade, o sentimento de abandono - muitas vezes -, tentando seguir a lógica do respeitar para ser respeitado. Isto, meu caro, é imensamente desgastante, porque não há transferência, fica tudo aqui e leva a outra pessoa a convencer-se que as suas ausências não causam transtornos, porque eu não cobro, pelo menos não com agressividade desmesurada. Feitas as contas, são noites e noites mal dormidas, para além de inúmeros dias de cão.

Anonymous Speech - Portuguese Protesters

Considerem-se outras perspetivas.

17/11/2012

Foi como amor aquilo que fizemos

Quando se junta a música d'A Naifa e a poesia de Margarida Vale de Gato, o que temos é isto. E é bom.

Émulos - A Naifa



ÉMULOS
Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos
Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.
Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.
E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.
Margarida Vale de Gato

16/11/2012

A Maria

A Maria é a pessoa estranha que mora no fundo da rua, na casa azul. Eu nunca lá vi ninguém a visitá-la, mas só tenho sete anos e ainda não vivi nada e ainda tenho uma memória curtinha, como diz a minha avó. Eu acho que não tenho nada uma memória curtinha, porque me lembro das vezes todas que a avó me prometeu que fazia pudim de chocolate e depois não fez, por isso, posso confiar na minha memória quando digo que nunca ninguém visita a Maria. Não sei se é por ser negra, pode ser que as pessoas tenham medo da cor da pele dela. Perguntei isto à minha mãe no outro dia e ela olhou para mim com um daqueles olhares torcidos que me arrepiam os cabelos e chamou-me “Ana Catarina! Isso não se diz, estás a ser preconceituosa, as pessoas não se definem pela cor da pele com que nasceram, definem-se pelo carácter que se forma dentro delas!”. Eu acho que foi isto que a minha mãe disse, ela às vezes diz umas palavras complicadas e eu tive de ir ao dicionário ver como se escrevia pre-con-cei-tu-o-sa e o significado, mas não era nada disso que eu queria dizer e a minha mãe é uma exagerada. Não é porque a Maria é escura na pele que as pessoas devem ter medo dela, é porque ela é escura no coração. 

14/11/2012

Porque a minha desinteressante vida não interessa a ninguém

Sei que a minha vida não interessa a ninguém, embora eu insista em partilhá-la nos seus aspetos mais sofridos e dramáticos - assim tem sido, mea culpa -, mas como não tenho nada de muito relevante para escrever, por que não divagar sobre a vidinha?

Têm sido tempos de muita reflexão, muito arrumar, muito abrir mão de coisas e procurar outras. Decidi deixar de vez o ensino (não consigo viver mais ano nenhum nesta corda bamba) e, tudo correndo bem, vou abraçar a minha outra paixão (toda a gente a torcer para que corra mesmo). Decidi pôr a cabeça em pausa e dedicar-me só a sentir coisas boas (ah, Fernandito, eu sei que não é assim, mas sou eu que mando). Decidi remodelar de vez a cozinha e partir os azulejos: se dantes tinha uma cozinha funcional, ainda que velha e feia, agora tenho um monte de entulho, igualmente feio, apenas não funcional. Pode ser que no fim consiga uma igual a esta, mais coisa menos coisa, deve ser mesmo menos coisa. Diferente ficará. 


Agora, vou ler ali umas coisas - que bem me andam a fazer as minha leituras -  e continuar a fazer festinhas ao Farfas que está refastelado no meu colo fofo e nutrido (o colo e o gato, ambos dois. Alguém quer um gatinho? Ainda falta dar três, duas gatas e um gato. Aproveitem, levam três pelo preço de um).

Já agora, quem mandou imagens para eu escrever coisas e publicar no outro blogue não desanime, eu não me esqueci, só não sei o que fiz à inspiração. A ver a acho.

13/11/2012

Música de cama

Casa
Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.
Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura. 
Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

Presídio
Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, troco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?
E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

Sotto voce
É possível que eu esqueça a liquidez da Lua
o sono dessa rua às três da madrugada
a longa caminhada orquestrada pela chuva
a sombra de uma luva em cima de uma vaga
É possível que eu esqueça o dia em que nasceste
Em que depois da luva apareceram as mãos
É possível que eu esqueça     Ou me seja indiferente
É possível que sim     É preciso que não
em Música de cama, David Mourão-Ferreira, Editorial Presença


É isto que ando a ler. Aconselho.

12/11/2012

Amor digital


Eu e tu, um amor descomplicado,
uma cabana com televisão por cabo 
e Internet sem fios.

09/11/2012

Faites attention, s'il vous plait



Pronto, ide-vos lá preparar para o fim de semana e tal.

08/11/2012

Apesar de tudo

há um dia em que temos de fazer as pazes com o passado e deixá-lo ir. Não se pode viver a olhar para trás.

07/11/2012

Ser ou não ser

não é a questão. Ser ou parecer. Isso, sim.

05/11/2012

E creio servirem estas baboseiras para ocultar um pequeno delírio do meu coração.*


trouxeste contigo um jeitinho brasileiro
entranhado na melancolia do norte,
no pé um samba bacana e disseste:
a tua música é muito triste,
a tua vida muito arrumada!
ao som de um forró,
reviraste-me as gavetas
e a cabeça, deixaste o meu
coração de pantanas.
mas estava frio, lembras-te? e o calor
arrefeceu na mala de viagem
que deixaste aberta no chão, remexida.
os músicos arrumaram os instrumentos e
a alegria num instante parou.
a chuva é má conselheira e a névoa
perturba a visão:
não vias para arrumar os livros espalhados por todo
o lado, eram tantos os copos para lavar e a fadiga muito grande.

está frio outra vez,
esteve frio o tempo todo,
gastou-se o calor na tua mala de viagem,
calou-se o samba e a minha música
continua triste, a vida menos
arrumada, pelo tanto que me sobra nas mãos.
faltas-me tu e o teu jeito e as tuas letras e as tuas perguntas e
tudo. e mais ainda!
está tanto frio outra vez,
o frio que já não sentes
por estares perto do sol, onde os dias são grandes
e a música não para, balançando sem cansaço,
no lado mais de amor, mais de ternura,
do meu coração resignado.


* [ o texto original a que este título diz respeito pode ser lido aqui. ]