26/07/2012

O que este blogue precisa é de nudez

E aviso prévio de conteúdo para adultos e muita badalhoquice.



Isto, porque o meu blogue está deprimido. Ontem, por volta das 2h30 da madrugada, enquanto andava às voltas no circo (há que escolher as horas calmas), ouvi-o lacrimejar e suspirar. Perguntei-lhe porquê, mas no seu melhor estilo homem fungou e não abriu a boca. Ora, bastou-me ver-lhe as entranhas para perceber. 

A culpa é minha, admito. Primeiro enchi-o de inutilidades imagéticas e musicais, depois virei-me para os floreados palavrosos e tudo o que ele queria era mais entradas como as da Ruth Marlene. É vê-lo inchar de orgulho, mostrando que aquele arremedo de post é o mais visto.

Estamos, por isso, num impasse editorial. Ou pseudocultura ou nudez. Eu quero qualidade, ele quantidade. Eu quero coisas bonitas e profundas, ele quer quanto mais melhor e à bruta.

Definitivamente, misturar circos e horas tardias, na minha idade, não pode dar bom resultado.

20/07/2012

Os olhos viram


Hymn for the fallen - Dead Can Dance


Os pés não tinham rumo traçado, apenas
o desejo de flutuarem nas pedras desenhadas no chão.
Caminhavam em passo certo, aquecidos pelo sol da manhã,
ritmados pela música que só os ouvidos ouviam,
sozinhos e ausentes no meio dos múltipos pés que se
cruzavam com eles. Iam. No vagar da manhã que acordou
em paz.
Mas os olhos prenderam-se ao passado e viram
o que só a memória guarda. Os olhos pararam os pés
e, naquele banco virado para o lago, viram-te claramente
na tua verticalidade de quem observa
mais do que é dado à vista.
Os olhos viram os casacos quentes e o vento frio
e a praia deserta. Disseste que fugias do sol,
mas os olhos sabiam que subias
e descias o teu olhar pelo negro das meias que abraçavam as pernas,
as pernas que se espreguiçavam no sol do inverno e fugiam
da saia curta demais para as cobrir.
Os olhos sabiam que sondavas
aquilo que não me disseste.
Os pés caminharam com pressa para aquele mesmo banco, os
olhos esconderam-se numa cortina de água gelada. A boca apertou-se,
para não te chamar e as mãos não te encontraram.
Mas os olhos viram-te, encostado àquele banco a observar
aquelas meias negras e a sondares o que não disseste.

16/07/2012

Take me somewhere nice


Está na hora de rodar o pensamento do modo pessoal, para o modo laboral. Aliás, está na hora de desligar a cabeça de tudo o que implique pensar nos últimos seis meses do ano, nos últimos seis anos da minha vida.
O mar das lágrimas deixou-me enrugada, há que mergulhar no mar do conhecimento.
Esperam-se ventos favoráveis e a simpatia de todos os entes.
Até já.



Take me somewhere nice - Mogwai

13/07/2012

Um almoço acidental

sentado à mesa branca, aprecia a ordem dos talheres
dispostos na disposição da ordem estabelecida
de fora para dentro: colher e faca à direita, garfo à esquerda, 
colher de sobremesa em cima.
o copo que se ergue na inclinação da sede e o guardanapo 
especialmente aperaltado para o efeito.
– já escolheu?
cai-lhe no prato a estranheza da pergunta.




«E se fossemos almoçar ali mesmo?» perguntou ele.

10/07/2012

One day I'll fly away



Preciso de ir ali não sei onde, fazer não sei o quê. Volto não sei quando.
Até lá, escrevam bastante.


07/07/2012

Deliciosas leituras

Que o fim de semana seja dedicado aos pequenos prazeres.




06/07/2012

Interrogações cíclicas. Considerações finais.


Como é que as pessoas que amamos nos morrem? Que cruel necessidade têm elas de nos ver sofrer, de nos abandonarem? As pessoas que amamos não deveriam ter prazo de validade, deveriam ser eternas, maiores do que a morte. 

As pessoas que amamos deveriam estar sempre prontas a receber-nos de braços abertos e sorrisos rasgados, nas horas quentes dos dias felizes, quando há cheiro a limão no ar e o sol se reflete no espelho celeste. 

São elas as guardiãs do segredo da nossa essência. Guardam-no mais dentro a cada abraço, a cada beijo, a cada riso, a cada lágrima. Tecem com as mãos cordas apertadas, fundem na pele os extremos das pontes que nos ligam, escavam no vagar do tempo os caminhos que percorremos a cada regresso, a cada reencontro.

As pessoas que amamos não nos podem morrer. As pessoas que nos amam não nos podem levar aos pedaços com elas, para parte incerta. O amor e a morte nunca deveriam encontrar-se.

03/07/2012

Seis meses é muito tempo e tempo nenhum

Siempre me quederá - Bebe



Hoje preciso fazer uma coisa diferente, um pouco estranha naquilo que são os meus hábitos de escrita e na forma como sempre ludibrio o que quero mesmo dizer, ainda assim preciso. Hoje vou escrever para ti, sabes, mesmo para ti. Tu, não um tu indefinido, mas tu inteiro. Escrever-te esta espécie carta, sabendo que nada te fará conhecê-la ou lê-la, ambos sabemos que Caronte não me deixa passar e eu continuo com os bolsos vazios de moedas. Ainda assim, vou fazer esta ridícula figura de tornar público aquilo que trago comigo há tanto tempo. Alguém disse já que todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Como eu. Como a minha espécie de carta.

Escrever isto é uma tortura chinesa, em vez de gotas que caem em tempos certos e pausados, o bater das teclas, uma após a outra, tentando encontrar sentido no que não sei explicar. O meu teclado... aquele que é igual ao teu, só mais estimado e menos gasto. Lembras-te? Eu lembro, não há um único momento que não lembre e mesmo aqueles que reescrevo na memória vão tornar-se verdade, porque me faltas tu para me dizeres que não foi bem assim.

Estou aqui às voltas com isto. Escrevo e apago, apago e escrevo, porque não quero olhar o calendário. Sabes que dia é hoje?  Saberás e eu também,  seis meses é muito tempo e tempo nenhum, para se esquecer quem se imprimiu tão fundo na pele.

Puxaste-me para um pesadelo que me suspendeu no medo dias a fio. No início, senti muita raiva. Tu não tinhas o direito. Não podias. Não foi justo, para ninguém. Quis gritar contigo, bater-te com fúria, pedir-te que me explicasses porquê. Depois, soube uma coisa que não me contaste e fiquei muito magoada. Não era preciso teres-me escondido, devias ter-me dito, as coisas seriam diferentes, relativamente, não o suficiente. Mas não disseste e eu fiquei com a raiva e a mágoa juntas.

Agora, não sinto nem uma nem outra. Só esta saudade constante que não me deixa esquecer que seis meses é muito tempo e tempo nenhum.

Sabes, às vezes ainda chegam aqui à tua procura. No início vinham mais, depois deixaram de vir. Não sei o que os trouxe cá, terá sido alguma coisa que tu disseste?, terá sido alguma coisa que alguém disse?, que eu disse? Não sei. Se eles soubessem como o meu coração se altera e o ar se prende e os olhos ficam em magoado silêncio quando eu sei que eles chegam. Mas não sabem, ou não querem saber. Isto foi assunto de lana caprina.

Há dias em que sinto vontade de te visitar. Desisto da ideia. Aquelas paredes de pedra e aquele portão de ferro não são o que quero lembrar. Prefiro conservar-te naquela tarde fria e chuvosa em que Ane Brun tocava em círculos no PC e havia uma manta branca e um livro que se lia com vagar e o silêncio e a chuva e a paz que se espalhava por mim. Prefiro assim.

São estas pequenas coisas, simples acontecimentos aleatórios e diálogos silenciosos que me faltam como a vida. São estas pequenas coisas que me fazem sorrir, até rir, e chorar. Tanto. De improviso. Até ficar cansada. Às vezes, procuro um certo vídeo, de uma certa música, só para te vislumbrar e assim parecer menos estranho este tempo. Afinal, para que servem tantas teclas num telemóvel? E faltam-me as tuas perguntas incisivas e os planos de um futuro que se esfumou naquele momento que já é passado.

Quando estou sozinha, digo o teu nome em voz alta. Ouço-me dizê-lo e, por breves instantes, é como se fosses materializar-te no espaço, acabado de vir da varanda, falando sobre qualquer coisa, e estes seis meses fossem um rascunho de uma novela abandonada. Digo o teu nome em voz alta, para não me esquecer que eras gente e que não te criei na minha cabeça. Digo o teu nome, porque tenho medo de me esquecer-te. Seis meses é muito tempo e tempo nenhum.

De todas as promessas que me fizeste, houve uma só que cumpriste. As outras diluíram-se na verdade dos factos. Cada uma deixou marcas por dentro. A última conseguiu ser a mais cruel de todas. Sabes, eu ainda espero... Fiquei por isso, com as mãos cheias de promessas e perguntas - porquê? -, o coração vazio de respostas, as respostas que desisti de querer saber.

Mas eu cumpri todas as promessas que te fiz. Disse-te que não prometo o que não tenciono cumprir, por isso, li o livro todo, texto e paratexto, detive-me com mais carinho nas partes que marcaste, decifrando as tuas razões. Algumas entendi, outras não. Li os outros livros todos também. E perdi o medo.

Perguntaste-me uma vez para que tinha eu um blogue, se havia tão poucas coisas mesmo minhas? Desconcertaste-me, como sempre. Fiquei com tanta vergonha, porque era verdade. "Tens de perder o medo e a vergonha e escrever". Eu perdi. Perdi o medo todo de escrever - até de escrever isto -, a vergonha de me assumir e tenho escrito, também eu com fúria, já não consigo parar. Mesmo que no fim esteja prostrada, mesmo que textos, como este, sejam uma mistura de pathos e catharsis, porque foi isso que a escrita se tornou. Só que tu já não vais ler isto, não vou ouvir a tua opinião, saber se lhes darias valor ou se te ririas com a sua incipiência. E isto parte-me o coração.

Queria tanto não ter perdido este medo e esta vergonha. O preço a pagar foi excessivamente alto.

Olha, o crocodilo laranja (ou a cobra laranja?) perdeu um olho. Não te preocupes, eu colei-lho de volta e tenho-o na estante, à vista, não quero que se danifique apertado entre um livro. Um dia, uma menina que já teve 7 anos vai ver um certo livro e vai-se lembrar de uma certa viagem de comboio e da língua vermelha deste bicho-mostrengo e a justiça será reposta.

Um dia, se tiver filhos, vou-lhes falar de ti, do teu talento, de como cantavas e tocavas tão bem, mesmo sem uma corda na viola. Vou-lhes contar que tu exististe e sabias jogar à bola e sorrias de uma certa forma quando rematavas com mais força e vias a bola passar-me por entre as pernas. Eu tinha de te agarrar muitas vezes, para ta roubar. Vou-lhes contar que gostavas de saber coisas e ficavas muito tempo a pensar nas palavras que aprendias, todas elas eram bacanas.

E vou ter tanta pena que eles não te possam conhecer, nem tu a eles. 

Estou cansada. Não consigo escrever mais nada. Não sei se devo permitir comentários - assim que escrevi isto, lembrei-me de ti, "por que te preocupas tanto com o que os outros dizem?". Mais uma coisa que vou perder. Vai ficar assim, aberto a todos. Já nada me assusta.

Preciso de dar um fim condigno a este texto - carta? -, mais uma coisa que não sei como fazer. Já te disse que me faltas? Tanto! Devo ter dito, se não disse, digo agora: faltas-me. Tanto.

Seis meses é muito tempo e tempo nenhum, para se esquecer quem se imprimiu tão fundo na pele.

02/07/2012

Foi sempre culpa minha


Culpa mía - Concha Buika

Nunca fui de atribuir culpas das coisas que me aconteceram. Sei, em consciência que essas mesmas coisas foram o resultado das escolhas que fiz. No limite, todas as escolhas foram minhas, porque podia ter escolhido diferente a qualquer momento. Mas não fiz diferente. Os avanços e recuos de muitas decisões foram sempre pensados e, os que não foram, desejei que acontecessem.

Assim foi quando saí de casa aos 18, assim foi quando voei para outro país, assim foi com os homens que amei - carinhosamente apelidados de Triunvirato, cada um à sua maneira, cada um no seu tempo, com o seu lugar e a sua importância. Por isto, se alguém é culpado, esse alguém sou eu. 

Amei-vos com demasiada intensidade, a todos. Do princípio ao fim. Amei-vos com tudo e o tudo foi muito, foi tanto.  Amei-vos de peito aberto, quase com fúria, esperando um retorno que não vinha, insistindo em dar aquilo que não tinham como dar de volta, porque não podiam, e eu sabia.  

Aqui está a minha culpa. Todavía pensando en [vosostros] me pongo triste*, porque eu queria que tivessem querido um pouco mais, permanecido um pouco mais, resistido um pouco mais. Que a minha intensidade não fosse o pretexto que faltava, para que escolhessem a partida silenciosa. Mais definitiva ou nem tanto assim.

Culpa mía porque vos escolhi, porque deixei que me escolhessem.





[ E tu também hás de ir. Eu sei que sim. Irás porque ficar será equivalente a uma urticária sem fim que incomoda e faz desejar o alívio que só a ausência dará. Podes olhar-me no fundo dos olhos e prometer o que quiseres. Não adianta. Este filme saltará da bobine num dia que não esperamos. Ficarão os frames soltos dos momentos felizes e nada mais. E até isso será culpa mía. ]


* verso da música "Culpa mía", Concha Buika