30/06/2012

Curso rápido de gramática

Esclarecendo dúvidas de gramática

Nem só de literatura (cof cof) vive este espaço, pois que a linguística (arrepio, susto) também é contemplada, várias vezes chamada a ser atriz principal ou tema central de algumas entradas. Mais uma vez, este blogue assume o seu dever cívico de informar e contribuir para o crescimento intelectual dos seus incontáveis leitores.

Não sei se já ouviram falar da TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário), mas esta senhora tem dado dores de cabeça e de barriga a professores e alunos, nos últimos anos. Não bastavam as mudanças de programas, ortografia, estatutos, também a gramática tinha de dar um arzinho da sua graça e vir-nos complicar as contas.


Curso rápido de gramática 

Tenho lido muitas confusões ortográficas com -mos e -se. Aproveitando que estamos na onda dos esclarecimentos, dou uma ajuda.

- Maria, chupa-mos! (imperativa) - separa-se, porque é pronome direto e indireto aglutinado (me+os).

- Nós chupamos com gosto. (declarativa) - não se separa, porque é o verbo conjugado na 1ª pes. do pl.

- A jogar assim, a Seleção lixa-se. (declarativa) - separa-se, porque é conjugação pronominal reflexa, i.e. a seleção lixa-se a si mesma.

- Como eu queria que ele se lixasse! (exclamativa) - não se separa, porque é o imperfeito do conjuntivo.


Vá lá, não fiquem assim. Eu ensino o truque rápido que nunca engana.
Estão a ver não? Então, sempre que tiverem dúvidas, ponham-no na frase e ele diz-vos se -mos e -se têm tracinho ou não.
Querem ver?

- Maria, NÃO mos chupes!

- Nós NÃO chupamos com gosto.

- A jogar assim, a Seleção NÃO se lixa.

- Como eu queria que ele NÃO se lixasse!



Viram o que aconteceu quando há um hífen? Claro que viram, vocês enchem-me de orgulho.

Agora, ide continuar a escrever essas coisas lindas que escrevem, mas sem se enganarem, é que afinal a nossa pátria é a língua portuguesa.



[ Nota: Vale o mesmo para -te. Não valia a pena estar a escrevinhar mais coisas. É fim de semana, caramba, há coisas mais interessantes para se fazer. ]

29/06/2012

Spam à moda antiga

Para quem pensa que o spam é coisa moderna.


@

Vida no campo

A beleza da vida no campo - parte I

- O que é aquilo no caminho?
- É um pau.
- Está a mexer-se!
- Ah! Afinal é uma cobra.



A beleza da vida no campo - parte II

Se gostas de caminhar pelo campo, nunca pises os paus que vês no caminho. Às vezes não são paus, são cobras. Vivas ou mortas.

28/06/2012

As casas de chá

As casas de chá sempre foram muito importantes para a sociedade, criavam-se enredos, discutia-se política, faziam-se e desfaziam-se famas e honras. Nos salões, ostentavam-se joias, penteados, sedas e froufrous, era uma feira de vaidades dentro de portas, tão concorridas como as feiras de fama com tendas e produtos para venda.

As salas de espera nos hospitais e centros de saúde são hoje uma espécie de salões de chá. Há o dono do espaço que disponibiliza uma série de ofertas medicinais e reúne os mesmos frequentadores, encontro após encontro, consulta após consulta. Passeiam-se doenças e discutem-se tratamentos, avaliam-se as capacidades dos médicos e todos são entendidos naquilo de que falam. Certamente conhecem alguém que conhecia alguém, parente de alguém que teve aquele sintoma, que por sua vez originou aquela doença (sem questionar que seja o oposto) e tem necessariamente aquele tratamento e aquele medicamento.

Não falta nem o fazer, nem o desfazer da honra alheia.





27/06/2012

Hoje joga a Seleção

[ mas não me apetece escrever sobre futebol ]



Em frente ao espelho

Em frente ao espelho faço caretas,
arreganho os dentes à decência,
ponho a língua de fora à compostura
aaaaaaaah!!!!
Abro a boca mais ainda,
outra vez
aaaaaaaAAAAAAH!!!!
Espreito-me por dentro.
Espalmo as mãos na cara,
zombie de olhos arregalados sou!
Franzo o nariz, torço os lábios,
sou mostrengo arrepiado,        
Um, nenhum, cem mil, um milhão!
E se eu fosse loira?

26/06/2012

A minha avó

A minha avó sorri-me do papel da fotografia em
que habita, numa moldura em tons dourados e rosa pálido.
A avó que me sorri do papel tem ainda o rosto
de menina que não teve tempo de ser mulher,
entretida que ficou a pousar para a fotografia que a
aprisionou no dia em que a Lei lhe deu permissão
para crescer. A avó que me sorri do papel tem
os meus olhos – ou sou eu que tenho os olhos dela? – a 
mesma forma, a mesma cor acastanhada de escuro,
arredondada e grande. Partilha comigo o nariz, o feitio da testa, 
o jeito do cabelo apanhado e os lábios, mais fino o de cima,
mais cheio o de baixo. A avó que me sorri do papel, sentada à 
janela daquela moldura bonita, não sabe de mim, nem do
que nos aproxima, não sabe que são minhas também as suas 
pernas, de coxas cheias, apenas mais longas. A minha
avó sorri, mas eu não. Tenho nas mãos os brincos
dela, aqueles que ela julga usar no retrato em que
sorri, e sinto saudades dela, a avó que eu não conheci,
que não sabe de mim, que não sabe dos outros netos, que
não sabe que o filho hoje também é avô. A minha avó,
sorrindo no papel, foi-se embora cedo demais. 23 anos era
só o início do tanto que ainda havia para viver.

25/06/2012

Monção


O som do telefone estremeceu o silêncio da casa. Tocou uma vez, duas vezes, três vezes… quando é que desligam? Não suporto o som estridente daquele telefone, não desde que deixou de me chamar gentilmente, de me sussurrar “atende, é ele. Não o deixes esperar”, e passou a gritar-me que atenda porque é publicidade, é do trabalho, é a minha mãe! Calou-se.

Preciso de café, de uma caneca de café forte capaz de acordar um morto, preciso de despertar, sentir a energia que me falta, mesmo quando durmo 12horas seguidas. O calor líquido e a cafeína sempre me souberam consolar.

A rotina dos meus dias consome-me e tem-me feito tomar consciência de uma aparente impossibilidade física que é a de estar a andar em duas direções opostas. No momento em que me encontro, sinto-me nos antípodas de mim mesma, como se o dom da ubiquidade me tivesse sido dado por uma qualquer fada madrinha que se atrasou em fadar-me desde o berço. Como foi que aconteceu? Não sei. Mas aconteceu.

Passo os dias rodeada de pessoas, falo com elas, ensino-as, encorajo-as, levanto-lhes a moral, sou a melhor claque que alguma delas teve a sorte de encontrar. O meu telefone não para, o meu nome é pronunciado a toda a hora, relembram-me a montanha de papéis que tenho de ler-escrever-simplificar, passam-me circulares de reuniões e perdas de tempo, sou o epicentro de um terramoto que promete arrasar tudo à minha volta. Ainda assim, surpreendentemente constato que estou cada vez mais sozinha. Todos me querem, mas ninguém me quer na verdade.

Preciso de outra chávena de café. Se ao menos o telefone parasse de tocar…

Olho-me no espelho, a minha pele branca está lívida, as olheiras profundas e os lábios descolorados. Devia ir ao cabeleireiro, mudar o penteado, mudar a minha cara, mudar a minha vida. 

Gosto de acumular tralha. É um facto, extensível a grande parte dos seres que se dizem humanos, e desde pequena que o faço e guardo um sem fim de objetos a que chamei "tesouros", "preciosidades", "recordações". À medida que cresço, essa tralha acompanha-me em forma de peças de roupa em duvidoso estado, mas que ainda hão de ser moda; potes de asas quebradas; tampas sem frascos e frascos sem tampas; pedaços de tecido, botões, molduras que só precisam de um pouco de cola, espelhos lascados, ratos de computador cujo cabo ainda pode ser útil, eletrodomésticos vários, enfermos alguns, cadáveres a maioria; despensa, escritório, garagem cheia de nadas que ocupam todo o espaço e deixam de fora o que é realmente importante.

Maldito telefone que não se cala! E a minha pele cada vez mais triste, mais pálida…

Tenho de me livrar dessa tralha, arrumar a casa, reorganizar tudo, arejar o que é importante. Simplificar!

O mesmo com o coração. Atulhei-o com amizades doentias, sentimentos de rejeição, amores que não me quiseram, fragmentos de memórias menos boas, pedaços de mágoas, algumas angústias, medos q.b.. No somatório disto tudo, sobra-me pouco espaço para novas amizades, novos amores, novos sentimentos, até novas dores.

Esta falta de espaço isola-me, ou são os outros que me afastam? Dizem que sou complicada, que deveria viver a vida ao momento, num absurdo carpe diem que só serve para desculpar a irresponsabilidade! Querer dá trabalho e as pessoas são muito mais interessantes quando tudo está bem. As perguntas de circunstância “como estás?” aterrorizam-se que lhes respondam “mal, muito mal”. Quererá de facto alguém saber como o outro está, como se sente? E por que tenho eu de carregar o peso da miséria alheia, quando o meu peso me esmaga e a minha miséria me sufoca?

Ninguém quer saber de ninguém. A menos que se chame Dona Clarinda e exerça a profissão liberal da coscuvilhice pro bono. Pelo que passo os meus dias a dar, dar, dar, a dar-me e o que eu recebo em troca não equilibra os pratos da balança. Perdi já a conta das vezes em que os estou a ouvir, sorrindo, dizendo o que é certo e a minha mente vagueia por outros sítios, procurando outras pessoas, outros lugares, outras conversas. 

Há alturas em que as coisas pesam pesos terríveis. O momento antes de dormir é muitas vezes uma mistura de estranho e doloroso. Preciso de um espaço, de um momento, de uma bolha de ar onde possa respirar e sentir que estou viva. Preciso de largar o meu lastro, arrumar a casa, a vida, arrumar-me a mim.

O meu coração era enorme, tinha o tamanho do mundo, agora já não. 

21/06/2012

Havia um par de meias


No chão de madeira envernizada há um par de meias atirado ao
acaso, esperando pacientemente o momento de voltar
a abraçar os pés descalços. Sentem um estremecimento
de euforia no chão, sabem que são procuradas, desejadas
pela força da necessidade. Os pés caminham nus no chão
de madeira envernizada, suspirando pelo par de meias que
descalçaram horas antes - sentem a falta do abraço,
abalam-nos a saudade. Os pés encontram uma meia, mas o que
eles querem é o par. Um pé é feliz, o outro sente-se abandonado.
Impacientam-se os pés à procura da meia ausente.
Os olhos oferecem-se para, lá do alto, esquadrinharem o espaço.
Cansam-se. Impacientam-se os pés e os olhos. As mãos esticam-se
solícitas, tateiam o chão, remexem as coisas. Também elas se cansam.
Impacientam-se os pés, os olhos e as mãos. A boca, aborrecida
pela demora e pela fuga da meia, escancara-se: - viste a minha meia?
Ninguém sabe da meia, nem pés, nem olhos, nem mãos, nem boca.
Arrefece na espera, mingua de saudade o pé descalço. Preocupa-se
a meia achada. No chão de madeira envernizada deveria haver um par
de meias atirado ao acaso, esperando pacientemente o momento
de voltar a abraçar os pés descalços. Mas não. No chão de madeira
envernizada há uma meia atirada ao acaso. A outra suspendeu-se no cabide.
Fugiu do chão, passageira clandestina de um lenço que se pendurou
distraidamente e ri-se baixinho do trabalho que dá. Mas os
ouvidos ouviram-na, os olhos encontraram-na, a boca espantou-se,
as mãos seguraram-na e o pé suspirou e por fim aconchegou-se.
Para castigo, foi enfiada numa sapatilha.



[não precisas de perguntar, este é para ti (:]

20/06/2012


Já vivi um 
grande amor, já vivi 
uma grande paixão, já vivi 
um grande encantamento. Todos 
foram dolorosas perdas. Só resto eu.

19/06/2012

Tudo o que me apetece


Rest Under the Sun by ~ambie-bambi @ dA


Tudo o que me apetece é ficar assim.

18/06/2012

Coisas que me enchem de orgulho

Então não é que uma certa menina decidiu referir-me nos Agradecimentos da sua tese?
Emocionei-me, esta é que é esta.



O examinando


A sala no grau aumentativo do bater do coração,
alinhada e correta, tudo a postos: caneta, lápis, borracha,
esperança e concentração.
Na parede, os braços do relógio arrastam-se pelos números,
um adamastor horrendo e louco ergue-se e
rasga as entranhas de um envelope,
rodopia por entre as mesas,
em cada uma deposita um papel animado com letras 
dançantes que fogem como ninfas perseguidas.
O examinando cerra os olhos, suspira,
pensa e esforça-se
escreve e risca,
corre atrás das palavras, pequeno sátiro desafortunado,
o mar do silêncio salpica-o de gotas nervosas.
Rema com força naquele mar,
sem auspiciar terra à vista.
O relógio comandado pelos ventos contrários,
apressa-se a chegar ao destino.
Misturam-se histórias, personagens e episódios,
pronome ou determinante?, a eterna dúvida,
revolve-se o estômago, a cabeça tonta.
Uma campainha grita.
– Poisem a caneta!
O pequeno náufrago em mais um ano à deriva. 



[hoje é dia de exame nacional de LP 9º ano. Vai, D., estamos todos a torcer por ti]

17/06/2012

Como um barco amarrado ao cais

Como um barco amarrado ao
cais, assim estou eu. Quero perder-me
entre ondas e marés, deixar que me
levem, não ter de decidir. Quero
que o sal me macere a pele e o
sol me doire e eu deixe de ser
como sou. Quero que a água me
lave por dentro e a espuma escorra
pelos meus dedos. Quero afogar-me
em silêncio e vazio. Que caiam as pontes,
que as margens se afastem até ao
infinito e eu não tenha como voltar. Se
perder os remos, melhor, não sei nadar e
ali me perco, sem vontade de me
encontrar. Preciso largar-te na
profundidade dos abismos, bater contra
as rochas e naufragar.




All the rowboats - Regina Spektor

16/06/2012

Inclassificáveis #1

O Fernando Pessoa tinha um ortónimo e heterónimos vários. António Gedeão era pseudónimo de Rómulo de Carvalho, Miguel Torga escondia Adolfo Correia Rocha e eu, que de modesta tenho pouco, escrevo como se de Uma Rapariga Simples me tratasse, porque a CSPPC que se esconde por detrás do nick nem sempre sabe muito bem com que linhas se cose e assim se vai ocultando atrás de um megafone. 

Serve este exórdio pseudo-intelectualóide para anunciar uma ligeira mudança neste espaço. Nem sempre o meu humor rasa o depressivo, nem sempre estou a falar de livros e música e cinema, às vezes tenho ideias idiotas, pensamentos  pouco coerentes, às vezes apetece-me aparvalhar como gente grande (poderia elucidar-vos, dizendo que este é o meu estado normal, mas não quero estragar a imagem de pessoa perfeita e excecional  que têm de mim) e, por isso, decidi criar a sub-rubrica (é plágio assumido) Inclassificáveis.

Lê-se no Priberam:


inclassificável

adj. 2 g.
1. Que não se pode classificar. = INQUALIFICÁVEL

2. Digno de censura ou reprovação.


Mesmo a propósito.

Aceitam-se ideias e cestos com fruta da época. Manifestações deselegantes não serão vistas com bons olhos.

14/06/2012

Gordura é formosura



Eu sou uma rapariga simplesmente pesada. Sou, não vale a pena estar aqui a enganar-vos e a dizer o contrário. Pois que tenho os meus pneuzinhos (cof cof), pois que tenho a minha coxa grossa, pois que se perdesse pelo menos 10kg não me fazia mal nenhum (humpf), mas, e isto para ser justa, comida de plástico é coisa que não entra no meu cardápio.

Pensar no Mac e coisas parecidas enjoa-me. Os quilos que tenho a mais são fruto de comidinha caseira e de um esqueleto pesado. É, não se riam, isto de ter 1.72 m não é fácil. A minha médica concorda comigo, diz que estou muito bem, que tenho peso a mais mas mal se nota (eu acho que a senhora precisa de óculos): "Tu já viste a tua altura? E a largura dos teus ossos? Tu praticaste natação, não foi menina?" (ela é brasileira e tem um sotaque delicioso). Sim para tudo e um pensamento a crescer a olhos vistos, eu quero casar e ter filhos com ela. Na verdade, se fosse um médico, seria muito mais interessante, mas quando alguém nos diz que não estamos gordos e somos lindos como somos (e isto inclui ser linda literalmente por dentro. claro que não explico o contexto), nem se deve pensar duas vezes.

Nos últimos tempos, dediquei-me às caminhadas diárias, uma horinha sempre a andar e os resultados já se notam. O peso ainda não diminui, mas já estou mais rija e isso é bom. 

Abençoada sopa à moda antiga e batatinhas com couves e batatas e arrozinho de frango com ervilhas e entrecosto assado no forno com batatas às rodelas e queijinhos da serra que o meu pai traz para casa e bolinhos feitos em casa que me estão todos no corpo, para não me deixarem esquecer que a felicidade está nas pequenas coisas, principalmente nas refeições em família.

13/06/2012

Finge tão completamente


Hoje, se fosse vivo, Fernando Pessoa completaria 124. É uma idade considerável para quem quisesse manter a sanidade mental num país como o nosso.
É, do meu ponto de vista, dos autores portugueses que menos consenso gerará. Se por um lado uns o amam à saciedade, por outro  lado outros odeiam-no com todas as forças do seu ser. Neste último grupo estão muitos alunos do 12º ano que estremecem só de pensar que Fernando Pessoa possa sair no exame, o que sucede frequentemente. No primeiro grupo, poderia incluir os pseudo-leitores do poeta que espalham supostas frases e pensamentos que, se eles realmente lessem Pessoa, saberiam que não têm qualquer ligação com os outros escritos. Por isso, esses não contam.

Para comemorar a data, deixo-vos Autopsicografia, o poema que tem feito estremecer de medo-pânico muitos examinados, os tais de que já falei. 

Durante anos não o entendi, não fui capaz de absorver a sua simplicidade tão complexa. É certo que o estraçalhei em análises temáticas e formais, é certo que o li à luz de todas as luzes que sucessivos professores e estudiosos acenderam, para me iluminar o caminho, sem que eu saisse da escuridão. Depois eu própria comecei a escrevinhar e a escrevinhar sobre assuntos que me eram tão caros que, embora precisasse de os pensar escrevendo, não me podia permitir mostrá-los tal e qual eram. Foi aqui que tudo fez sentido, no confronto entre o coração e a razão.


Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

11/06/2012

ODEIO A CALÇADA PORTUGUESA!

ODEIO A CALÇADA PORTUGUESA!!!!
ODEIO.
ODEIO.
ODEIO!

Não é a calçada no seu todo, não incluo as praças habilmente calcetadas, os espaços bonitos que os turistas fotografam à saciedade.

O meu ódio é dirigido aos passeios desnivelados, com buracos, com falhas, calcetados às três pancadas, que nos fazem andar numa montanha russa de pedra, quais artistas de circo equilibrados no arame.

Tenho TODOS os dedos dos pés cobertos de bolhas, bolhas essas que rebentaram e sangraram. Tenho umas capas novas nos sapatos, tudo generosamente patrocinado por esse arremedo de arte que se espalha por todas as zonas pedonais.

Ah, que saudades de Perugia, em que os passeios eram todos de cimento ou alcatrão.



A divisão das partes


Divide-se o ser em partes iguais. Duas metades agridoces,
em formas aparentemente semelhantes. Uma que,
insurgindo-se contra o tempo, persistirá na saudade,
no lamento, revivendo em contínuo os microssegundos
de uma existência que coube, toda ela, na palma
da mão. Pelejando o esquecimento, perdurará na lembrança, 
no afago, tecendo cada memória nos músculos do
coração. Coexiste com esta a outra parte, a metade
derrotada pelo tempo e pelo cansaço da espera vã. A metade
que enxugou as lágrimas com as costas das mãos e largou o
que já não era seu. A metade que se começou a levantar, a
juntar os pedaços, a caminhar com passos lentos,
para parte incerta. Certa de que é necessário
que volte a viver.

08/06/2012

A Florencia hoje disse tudo

Shake it out - Florence ande The Machine

"And I've been a fool and I've been blind
I can never leave the past behind
I can see no way, I can see no way
I'm always dragging that horse around
All of his questions, such a mournful sound
Tonight I'm gonna bury that horse in the ground
So I like to keep my issues drawn
But it's always darkest before the dawn"

06/06/2012

Quando não há muito mais a fazer, respirar





Está uma magnifica tarde sol.
Aqui dentro, sinto-me sufocar.
A roupa na corda!
Levantei-me
Desci as escadas, atravessei o corredor, abri a porta e saí.
Na rua está um sol quente e uma aragem leve e fresca.

Sentei-me no muro do jardim.
Descalcei os chinelos.
Dali, conseguia ouvir a Ingrid a cantar repetidamente All I can do is keep breathing...
Numa inspiração do momento, puxei a saia para cima, muito mais acima do comprimento dela, pus os óculos no decote da camisa e fechei os olhos.
Respirar...
Fundo.
Mais fundo...
Profundamente...

Sentia o sol consumir o cansaço dos meus olhos, aquecer as minhas pernas, massajar os meus pés, deixar-me a cara a ferver.
Fiquei ali tempos esquecidos.
A brisa brincava com as farripas do meu cabelo e eu deixei.

O sol não substitui aquilo de que sentimos falta mas aquece, e quando estamos quentes tudo é mais simples.

Respirar...
O sol...
Respirar mais...
A brisa...


Havendo falta do resto, temos sempre o sol.









[escrito em abril de 2008, postado aqui pela primeira vez em maio de 2009. curiosa rotação do sentir]

O menino sentado à mesa


O menino sentado à mesa escreve em complexa
concentração. Analisa todas variáveis do sono e pesa a
vontade de estar lá fora.
O menino sentado à mesa tem sonhos elevados à raiz
quadrada do trabalho que lhe exigem.
Desenha no papel curiosidades e navegações que ondulam
no sobe e desce da caneta.


05/06/2012

O campo de girassóis (ou só mais um dia mau)


Um dia disseste:
Vamos plantar um campo de girassóis.
Eu ri. O teu plano era disparatado, mas
tu insististe e eu acarinhei a ideia.
Preparei o terreno, tu semeaste a semente e
os girassóis nasceram.
Tu já não viste o que o campo produziu,
estavas demasiado ocupado a escrever versos,
sentado nas nuvens, comendo maçãs.
Eu fiquei com um campo de flores, a transbordarem 
do regaço, abundantes demais para as apanhar sozinha,
olhando as nuvens, colhendo caroços de maçãs.


01/06/2012

Porque nem sempre se deve beber do Letes


O silêncio espalha-se como leite derramado pelo chão, a respiração é rápida e leve porque qualquer movimento mais agressivo a pode quebrar. Os olhos perdem-se pelo espaço. Ela não vê nada, não ouve nada, não sente nada, só aquele contínuo de sofrimento que toma conta de todos os ossos e músculos e pedaços de si, aprisionado pelos lábios apertados na força do equilibrio que lhe foge. Não sabe o que pensa. Nega-se à realidade. Às veze veem-na andar, não sabem que são as pernas que a levam, que a carregam sem vontade de voltar. Fecha os olhos, perde-se no tempo.

-  Tens de esquecer e seguir em frente.

Duas orações que a agridem, copuladas na boa-vontade, que lhe abrem bruscamente os olhos e a fazem pestanejar. Esquecer. Seguir em frente. Esquecer. Pensar noutras coisa. Esquecer... O comentário piedoso que as bocas deveriam guardar para si. Não entende o sentido do que lhe dizem. Como é que se esquece? Como é que se continua a viver, fazendo de conta que uma parte do seu passado não existiu? Como é que se substituem as pessoas que se amaram?

Fecha os olhos, aquieta-se, suspende-se do mundo que a rodeia e continua a girar indiferente.

Sente-se agoniada, fisicamente enferma de uma chaga que lhe consome a alma.

Não entende de que serve viver se a existência de cada um é apagada no dia em que morre. Não entende para que se ama, se gosta, se cuida, se tudo o que resta é esquecer. Não entende esta violência que nos torna nada, nem pensamento, nem saudade, nem cicatriz na memória. Que legado é o nosso no mundo?

Ouve-os sem os escutar, os olhos secos. Quer gritar-lhes que melhor seria que nos deixássemos todos, vivêssemos isolados e sem contacto, desistíssemos de nos dar e de querer receber. Melhor seria que fôssemos apenas indivíduos sem nome, tornados lápides e números no cemitério da cidade. Não grita. Olha-os com tristeza e mágoa. Ignorantes! Não sabem nada, não veem que também eles serão esquecidos, que também a vida deles é inútil.

Continua calada, inerte. Num futuro que há de acontecer sem hora marcada, sabe que lamentará menos, chorará menos, sentir-se-á menos magoada. Esquecer, não esquecerá.