31/03/2012

Eu... Ik... I... Je... Io... Yo... EGO


3 Maio 2009
Two Faced by ~exoticpeach


Eu sou e fora de mim não há outro.
Eu penso.
Eu sinto.
Eu falo.
Eu escrevo.
Eu.
Dono da minha razão.
Senhor da minha vontade.
Eu sou.
Não sou!
Eu sou mas fora de mim há outros, muitos outros.
Eu penso porque mais alguém pensa.
Eu sinto porque mais alguém sente.
Eu falo porque mais alguém fala.
Eu escrevo porque mais alguém escreve.
O Outro.
Dono da sua razão.
Senhor da sua vontade.
O Outro é.
Porque eu sou, eu penso, eu sinto, eu falo, eu escrevo em duas direcções.
Ora me aproximando, ora me afastando do Outro.
Eu sou!
Mas o Outro também é.

30/03/2012

Há um perfume que não sai do meu cheiro.

Há um perfume que não sai do meu cheiro. 
Há um sabor que não sai da minha boca. 
Há uma voz que não sai do meu ouvido. 
Há um toque de pele que não sai das minhas mãos. 
Hás tu que não sais dos meus olhos.

Entra, não faças barulho.

Inunda o meu olfacto. 
Apodera-te do meu gosto. 
Fala ao meu ouvido. 
Toca a minha pele. 
Entra nos meus olhos. 
Mas não faças barulho.


27/03/2012

É gente a mais para tão pouco sonho

Nem sempre as minhas palavras chegam para tudo o que quero dizer.
Assim sendo, peço emprestadas as dos outros.


Fuga em nós - Mob of God


O que solta em nós o medo é
O que faz de nós pecáveis:
Um fogo forte do momento
Inquieta-me de livre intento. 
A cada fuga em nós, voltar.
Para cada luta em nós, largar.
Por cada dança solta, eu ia
Trocar o sol de mais um dia,
Sentindo-te ir dormente para lado nenhum. 
De que serve o corpo quando fraco
Em imagens que perduram. Tantas.
É gente a mais para tão pouco sonho.
Intuição à qual não me oponho. 
A cada fuga em nós, voltar.
Para cada luta em nós, largar.
Por cada dança solta, eu ia
Trocar o sol de mais um dia,
Só para sentir o peso de amor nenhum.

26/03/2012

Scribbling on the sky the message He Is Dead*

Há uma grande dificuldade em assumir as perdas como elas são. Floreiam-se os factos com metáforas mais ou menos gastas. Cruza-se a semântica da morte, com a semântica do fim amoroso, presta-se o cruzamento a grande confusão - Ele partiu, ele foi embora, ele não volta, nada será como antes... e o leitor a imaginar que foi mais um romance que chegou ao fim.

Os amores acabam. Manifesta-se a perda em textos longos e sentidos, a culpa é quase sempre de quem vai, a inocência de quem fica. A poesia de perda amorosa enche páginas, porque O amor é fogo que arde sem se ver** e se tu viesses ver-me hoje à tardinha***, tudo voltaria ao que era. A infindável banda sonora de quem canta o que sentimos e canta como nos deveríamos sentir espalha-se pelos mundos virtual e real - a mesma música ouvida à saciedade. As investigações privadas, para saber como o outro está, o vaguear pelos mesmos espaços na esperança de um reencontro, as vinganças de quem quer mostrar que já está noutra. Tudo acabou, mas tudo é possível.

Depois há a morte. Ele realmente partiu, foi embora, não volta e nada voltará a ser como antes. Mas não há culpados nem inocentes, só a vida a ser vida na sua estranha forma de ser. A poesia não chega, a música não consola. Não há lugar a investigações, reencontros ou vinganças. O silêncio como companhia. Tudo acabou, nada mais é possível.




* W.H. Auden, Funeral Blues
** Luís Vaz de Camões, Amor é fogo que arde sem se ver
*** Florbela Espanca, Se tu viesses ver-me 

23/03/2012

You better believe it was something you said*


Descobri a solução perfeita para não te sentir a falta. Penso-te em abstrato, remeto-te à perfeição do mundo das ideias (aquele mundo onde estão as cadeiras por onde divagámos), penso-te em nome+apelido e substituo-te as feições pelos contornos dos teus livros.

Tornas-te assim só mais um no panteão dos ilustres e és branco, amarelo, avermelhado, pintado nas cores das imagens que envolvem as tuas letras. 




Este é um bom exercício de distanciamento que falha quando penso em marroquinarias, em puro chocolate negro, em croissants de chocolate aquecidos cortados em metades e caminhadas e pizzas de frango e atum e no mar e nas gaivotas e em garrafas de vinho tinto e outros nadas que me fazem lembrar que tinhas um nome sem apelido e um timbre de voz característico, que te rias de uma certa forma e que a tua imagem continua bem definida.





*verso da música "Lust Condemns", dos Mob of God

22/03/2012

Time, make it go faster

Like a song - Lenka




I can't forget you when you're gone. 
You're like a song 
That goes around in my head. 
And how I regret 
It's been so long. 
Oh, what went wrong? 
Could it be something I said? 
Time, make it go faster, 
Or just rewind 
To back when I'm wrapped in your arms. 



[eu ainda não consigo acreditar que essa partida tenha sido tão definitiva. 
contra todas as razões]


21/03/2012

Há poesia nas árvores

Reading_by_doncarstens



Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta. 
Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas. 
Renque e o plural árvores não são cousas, são nomes. 
Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem, 
Que traçam linhas de cousa a cousa, 
Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente 
reais, 
E desenham paralelos de latitude e longitude 
Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do 
que isso! 


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLV" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 



[no dia da Poesia, há um poeta que me (nos) falta tantíssimo]

20/03/2012

Independentemente de ganhar ou perder


Acabei de descobrir que há mais anti-benfiquistas do que adeptos de outros clubes. Enfim, a pequenez mental não dá para mais.

Em nome de um clube que não quer saber se vivemos ou morremos (a menos que lhes dêmos lucro), ofendem-se os amigos, familiares, os conhecidos.

Felizmente, na minha casa, só me ensinaram a ser do Benfica (e da Naval e da Académica e da CPA e do Montemorense), nunca me ensinaram a desprezar os meus adversários.

Isto, meus caros, não é para quem quer, é para quem pode.

19/03/2012

La verità

Non riesco a togliermi di dosso questo senso di colpa perché hai deciso di farla finita.

16/03/2012

If lust is a crime, I'm ready to confess

Lust - Mob of God


Já aqui tinha publicado uma música deles que faz parte da minha playlist diária.
Deixo-vos o artigo da revista Aula Magna, para vos abrir o apetite para este som fantástico e mais uma música, só porque é bom, eu gosto e quero partilhar. :)



Mob of God


Género: Alternativo, Rock, Soul, Jazz, Folk, Metal, Blues – the 60's, the 70's and early 90's plus world music
Os Mob of God começam como um grupo descomprometido de amigos que se juntavam ocasionalmente para tocar e para explorar um gosto em comum – a música. Desde 2003 e ao longo de 4/5 anos, fizeram consecutivas experiências e compuseram algumas canções, entre curtas paragens. O projecto, até à data composto por quatro elementos – Nuno Tavares (guitarra eléctrica e voz), Pedro Torradas (baixo), Ricardo Penedo (teclas) e Bruno Gaspar (bateria), tornou-se mais sério com a entrada da vocalista Maria João Oliveira em 2008. Desde então que têm trabalhado no sentido de desenvolver aquilo a que muitos chamam de “um estilo próprio”.
As nossas influências são dispersas, vão desde o Metal ao Fado, e cada elemento contribui de forma diferente no processo criativo. Por isso, acaba por ser a combinação dos dois o resultado da música que fazemos. Por essa razão, e sem qualquer pretensiosismo, parece-nos impossível julgar a nossa sonoridade com base numa música apenas ou enquadrá-la num estilo só. Vemos cada música como o reflexo de um momento e, pela sua subjectividade, sentimo-nos livres de explorar o que fizer sentido para nós no respectivo momento.

Assim, a nossa música não se prende a géneros, nem a barreiras ou a rótulos… mas sim a mensagens, reflexões, sentimentos pontuais. Alguns felizes, outros nem tanto. É isso que o nome Mob of God significa. Mais do que uma tradução literal e preguiçosa para “Gente de Deus”.
O nosso primeiro EP – Zero Uno – está agora disponível para todo o mundo no site do CDBaby. Para saber como comprar, em Portugal, envia-nos uma mensagem pessoal para mogzone@gmail.com.
Our first EP – Zero Uno – is already available worldwide at CD Baby, physical or digital format.

13/03/2012

High society


observo as senhoras nos seus penteados armados,
enfeitadas de pérolas e jóias très chic,
esticadas nas peles e nas alturas
- artistas de circo equilibradas em duas agulhas.
pintam os beijos de encarnado,
apertadas na elegância dos vestidos dois números abaixo,
unhas afiadas à moda
- pergunto-me se têm licença de uso e porte de tais armas -,
meneiam-se e inclinam a cabeça segundo a etiqueta,
sabem tudo sobre assuntos postiços
e riem na escala de si, provocando ondas de dó maior.

12/03/2012

Verbo ser

eu sou
tu és
ele é
nós fomos...
somos.
fomos!
fomos?
somos.

10/03/2012

Das meias, mini-meias, collants e outros embaraços

Devo ser a única pessoa que chora de dor cada vez que lhe corre uma malha nas meias. 
É normal que se sinta um nível elevado de raiva ou frustração, principalmente se esta malha decidir correr na meia numa ocasião desfavorável a quem as usas, como o dia de uma entrevista de emprego, por exemplo. Mas não é bem isto que me acontece. À resignação de ver arruinado mais um par, alia-se a dor e algumas lágrimas que não pedem licença para correrem a par com as malhas, a ver quem chega primeiro.
Ora, isto sucede-me porque ao primeiro sinal de desgraça sintética ouço-te a pergunta:
- Mais uma?
De todas as vezes que nos vimos, eu rompi meias, mini-meias, collants em lycra e opacos; nenhuma escapou a embaraçantes momentos de constatação do óbvio.
Por isso, cada vez que sinto a desgraça eminente, é de ti que me lembro e há sempre uma teimosa lágrima que insiste em fugir-me. No fim das contas, estas coisas pequeninas e sem poesia é que me faltam.

08/03/2012

Continuo a querer voar

Verde é a cor do amor que se partilha

Se os pés descalços se podem encontrar à noite,
acarinhando-se debaixo dos lençóis,
as meias podem igualmente calçar
ora uns, ora outros.
Verde é a cor do amor que se partilha

06/03/2012

Porque é preciso que se saiba que vos estimo

Estou a passar por um processo avaliador do que sou, da minha vida, dos meus afetos. Impunha-se, depois do que aconteceu recentemente. Nunca antes tinha tido a certeza tão firme que a vida é muito curta para ser gasta em ninharias e que as palavras devem ser ditas, ou escritas, quando têm de ser, guardá-las não nos acrescenta nada, a não ser a mágoa de nunca as termos dito, ou de não termos dito as suficientes. Insistimos em esperar por um tempo mais oportuno, por uma ocasião mais acertada, e um dia acordamos e percebemos que não há tempo para mais nada, que a oportunidade já passou, e ficamos com aquilo tudo a pesar-nos as mãos e o peito e a mente e os braços. Por isso, decidi que devo, realmente é impositivo, dizer às pessoas que estimo que as estimo, que lhes quero bem, antes que seja tarde.

05/03/2012

Ninguém sabe dizer qual


For everything a reason - Carina Round


And so they say, Lord, for everything a reason
My house is haunted by wrong desire
And on my skin left the scent of indignation
And so they say, baby, for everything a reason
I saw you leaving, I saw the light go out
I saw you leaving
I saw you leaving

04/03/2012

Talvez um dia o Sérgio Godinho a cante

o mais difícil é já não te ouvir cantar

esconder fotografias e viver sem saber que esperar
o mais difícil é arrumar a tristeza

é não ter explicação

desfazer toda esta incerteza
(Pior que perder - Adriana)







[foi bom voltar a ver-te sorrir,
ainda que um sorriso preso em frames.
o tempo passa,
continua-me a faltar
a tua amizade.]

02/03/2012

Já não sou tão hábil em esconder o que realmente este coração sente

O que me persegue dia e noite é 
a lembrança 
dos olhos 
profundamente tristes 
e do abraço 
apertado. 
O último.
Isto é que continua 
a deixar-me 
prostrada.

[Visão 991]