27/12/2012

Os mortos não bebem

Não é verdade. O meu morto bebe-me todos os dias. Um pouco mais de cada vez. 
Pegou em mim inteira e dispôs-me numa linha longa de pequenos copos de vidro, todos iguais, a bem do equilíbrio estético, numa transparência cintilante de matéria não terrena, em cima de um balcão de eternidade. Pouquinho em cada um, é preciso beber devagar, para não perder a clarividência. Pintou-me de vermelho rubro e amarelo ambar, aumentou-me o grau e assim me degusta entre pensamentos de compreensão holística. Até não sobrar mais nada.



* Título retirado do filme Mortinho por chegar a casa, de Carlos da Silva e George Sluizer.

14 comentários:

  1. Desculpa o comentário, mas ri-me imenso ao lembrar-me deste filme. Aquela frase de 'obrigado' em inglês da Maria D'Aires era demais!
    Um bom filme, que vi no cinema! Cinema português! :)

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    1. Isso é muito lindo, é, é! Vir aqui gozar com os momentos introspectivos dos outros... (-.-)

      Estou a brincar! :) Não vi no cinema, mas já vi na televisão, embora não me lembre muito bem da história, mas lembro desta frase e uso-a muitas vezes (nem sei bem porquê!).

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  2. Mesmo que me esforce muito haverá sempre certas tonalidades que nunca enxergarei... e o meu daltonismo sempre pode servir de desculpa.
    :)

    Um brinde à escrita (ou à escritora?)!

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    1. Não é o teu daltonismo de leitura, é o meu daltonismo na escrita. É um exercício que faço em consciência, nunca deixar que se saiba exactamente o que quero dizer, onde quero chegar, por defesa e protecção. Este espaço não é para eu contar a minha vida ao segundo, mas e toda a minha vida que aqui está. :)

      Um brinde ao morto, só ele conseguiu pôr-me a escrever assim.

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  3. Os mortos não bebem porque não podem

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    1. A escrita e a lógica às vezes amuam e dormem de costas voltadas. É sempre a estética a meter o bedelho.

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    2. Tenho imensa pena que não bebam, iria muito mais tranquilo para a infinita morada

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    3. (bem me parecia que falhei o Sitio, no primeiro comentário)

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    4. Bem voltado, tu e a tua (desa)pontaria para o sítio certo. :)

      Talvez bebam, só não sei se bebem vinho tinto ou whisky velho, para não perder a noção do que são. Parece que as palavras precisam de mão prática.

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  5. Nem dormem na mesma cama, senão poderia haver um pé, e depois uma mão, e finalmente um avião.

    (faltaram-me as ideias para rimar com ão :D)

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    1. Haveria sempre um colchão (safavas-te bem com esta. lol).

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  6. Há mortos que nos sorvem até quase não restar nada, mas, e querendo ser um pouco sórdida ou malandra, temos que nos guardar para os vivos, pois esses bebem-nos e dão-nos prazer :)

    Bisou!

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    1. Ser malandra é dizer que os vivos nos comem e dão prazer. Esses alimentam-nos, não nos sugam. Bem... mudemos de assunto. ;)

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