13/11/2012

Música de cama

Casa
Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.
Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura. 
Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

Presídio
Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, troco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?
E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

Sotto voce
É possível que eu esqueça a liquidez da Lua
o sono dessa rua às três da madrugada
a longa caminhada orquestrada pela chuva
a sombra de uma luva em cima de uma vaga
É possível que eu esqueça o dia em que nasceste
Em que depois da luva apareceram as mãos
É possível que eu esqueça     Ou me seja indiferente
É possível que sim     É preciso que não
em Música de cama, David Mourão-Ferreira, Editorial Presença


É isto que ando a ler. Aconselho.

4 comentários:

  1. "Um amor feliz", do mesmo autor, também "recomendo".

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    1. Se houver na biblioteca, vou trazer, sim.
      Ando a pôr em dia as minhas leituras, seguindo uma orientação única: ler o que puder de um mesmo autor, continuamente, até formar a minha opinião e não me esquecer do que li. :)

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  2. Já li há uns anos e fiquei encantada!
    Volto a ler um outro de vez em quando, só porque sim, porque são maravilhosos!

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