05/11/2012

E creio servirem estas baboseiras para ocultar um pequeno delírio do meu coração.*


trouxeste contigo um jeitinho brasileiro
entranhado na melancolia do norte,
no pé um samba bacana e disseste:
a tua música é muito triste,
a tua vida muito arrumada!
ao som de um forró,
reviraste-me as gavetas
e a cabeça, deixaste o meu
coração de pantanas.
mas estava frio, lembras-te? e o calor
arrefeceu na mala de viagem
que deixaste aberta no chão, remexida.
os músicos arrumaram os instrumentos e
a alegria num instante parou.
a chuva é má conselheira e a névoa
perturba a visão:
não vias para arrumar os livros espalhados por todo
o lado, eram tantos os copos para lavar e a fadiga muito grande.

está frio outra vez,
esteve frio o tempo todo,
gastou-se o calor na tua mala de viagem,
calou-se o samba e a minha música
continua triste, a vida menos
arrumada, pelo tanto que me sobra nas mãos.
faltas-me tu e o teu jeito e as tuas letras e as tuas perguntas e
tudo. e mais ainda!
está tanto frio outra vez,
o frio que já não sentes
por estares perto do sol, onde os dias são grandes
e a música não para, balançando sem cansaço,
no lado mais de amor, mais de ternura,
do meu coração resignado.


* [ o texto original a que este título diz respeito pode ser lido aqui. ]

5 comentários:

  1. gosto muito mais destas baboseira do que das originais
    gosto, e no entanto custa-me ver estes textos cheios de tão grandes vazios

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    1. Chega um dia em que até os vazios têm de ser guardados. Hoje é um desses dias.

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  2. "e a música não para, balançando sem cansaço"
    Tão, tão, lindo...

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    1. Porque é assim que temos de pensar, para ser menos triste. :)

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