21/08/2012

Uma manhã tranquila


O dia que se escolhe para dizer adeus não deve ser ao acaso. Por isso, esperou por uma manhã tranquila, de vento calmo e sol a meia haste, para resolver de vez aquilo que a consumia. Aquilo, a paixão que a fizera feliz o tempo mais do que permitido estava resumida a um pronome indefinido, o que nem era despropositado, uma vez que tinha sido assim que se sentira a maior parte do tempo que durou aquela estranha aventura.

Naquela manhã, assim que abriu os olhos e pestanejou para se habituar à escuridão do quarto, sem a qual era impossível dormir profundamente, soube que, independentemente do tempo que estivesse, lhe era necessário escrever o ponto final da novela ultrarromântica em que se transformara a sua vida amorosa. Levantou-se de um salto, a procrastinação não era bem-vinda, lavou a cara, apanhou o cabelo num carrapito, enfiou um vestido de florido algodão e armada de uma caneca de café sentou-se em frente do computador.

Bebeu um gole de café, enquanto esperava que o programa abrisse, e olhou a janela. O dia que escolhemos para dizer adeus não deve ser ao acaso. Seria muito cruel fazê-lo num dia de sol e calor, esses dias pedem reencontros e beijos e abraços apertados e a paixão a espalhar-se pela pele. Esses dias são para andar pelas ruas de mãos dadas, para sentar nos bancos do jardim, para trocar alheados beijos enquanto o semáforo dos peões não fica verde. Dizer adeus num dia assim seria contrariar a vontade, o que não resolveria a questão. Bebeu outro gole de café e suspirou, o seu computador também estava cansado, acordava preguiçosamente, talvez precisasse de cafeína informática. Já os chuvosos e frios dias de inverno também deviam ser evitados, basta já a dor da despedida, não é preciso intensificar essa dor com a tristeza cíclica da natureza. Por isso, a manhã em que tinha acordado era perfeita.

Gostava do seu cantinho. Era acolhedor e delicado. Poder-se-ia dizer demasiado influenciado por revistas de decoração e programas de remodelação, mas não deixava, por isso mesmo, de ser um espaço de serenidade em tons pastel, salpicado por tecidos de miúdas flores, iluminado por uma enorme janela que chamava o seu olhar repetidamente, pedindo-lhe que se perdesse na profundidade do que os seus olhos podiam alcançar e se alheasse daquilo que sabia ter de fazer. À sua frente a página em branco e um teclado negro, prontos para levarem a mensagem final. Gostaria de poder escrever aquela carta à moda antiga, numa folha de papel timbrado, caligrafia elegantemente vestida de negro, onde ele pudesse ler as manchas que as suas lágrimas escreveriam. Choraria, sabia que sim. Por muito necessária que seja a despedida, não se faz sem sofrimento. Como um penso que se agarra à pele com a força da cola e dói e deixa marca, às vezes sangra, quando é arrancado, mesmo quando as mãos que o puxam são delicadas e a intenção é não magoar.

Bebeu mais um gole de café. Estava a divagar. A atitude resoluta que a acordou arrefecia como o líquido negro e levemente açucarado dentro da caneca amarela. Respirou fundo. Abriu o email. Ignorou todas as mensagens. Clicou em Nova Mensagem - o que tinha para escrever não podia ser resposta a outra mensagem, era um novo começo e o definitivo fim -, fechou os olhos para se concentrar. Abriu-os e começou:


Olá,

Acho já estar em condições de te explicar aquilo que não sabia muito bem como dizer e que, por isso, tenho andado a evitar. Mas está lá, está sempre lá e eu sei que tu sabes que não digo, e eu sei que finges não entender, hoje é o dia para enfrentar este bicho-papão e trazer à luz este lado negro.
Estou cansada, tu sabes que estou cansada, percebe-lo na extensão das conversas que diminui na proporção em que aumenta a minha fadiga. Não sei onde começou, se na alma e se espalhou ao corpo, se no corpo e contaminou a alma, não sei, o que sei é que está lá. Aposto que sorriste. O meu desconhecimento de tudo o que me diz respeito começa a ser irritante, pelo menos para mim é, gostava de ter certezas e dizer-te que "é assim e assim, por isto e por aquilo" e pronto. Mas não sei. Se calhar não sorriste, ficaste só mais um bocadinho triste. Não sei. 
Há uma coisa que eu sei, o que preciso de te explicar, de deixar claro, de resolver, e o que sei é que o meu cansaço vem de uma violência que eu faço a mim mesma. No fundo, tu não tens culpa, nenhum teve culpa, sou eu que o faço a mim. Não consigo não investir emocionalmente nas pessoas, para mim não há coisas pela metade, não há estar de vez em quando, não há ir estando, não há amigos coloridos ou friends with benefits, como queiras, para mim há pessoas de quem gosto e com quem quero estar ou não há ninguém. Por isso, não consigo perspetivar começar a relacionar-me com alguém ou a desenvolver algum tipo de interesse por outra pessoa, se continuamos com uma promessa sem prazo de ser cumprida, se continuamos a alimentar isto que há entre nós, se tu continuas a insinuar-te na minha vida e nas minhas emoções. Sinto-me a trair alguém no meio disto tudo, e não estou certa de não ser eu a mais traída por mim mesma. 
Eu não sei gerir relacionamentos com demasiadas regras e proibições. Estou cansada de que o tempo que me dedicam tenha de ser contado. Cansada de ficar horas à espera de um email, de um telefonema fortuito, de controlar as minhas ansiedades porque não posso falar com a outra pessoa livremente, cansada de depender do tempo do outro. É isto que me cansa, me esgota, tem dado cabo de mim. É isto que eu não posso deixar que continue, Ligar o computador e controlar o desânimo porque não respondeste. Esperar pelas não sei quantas horas, porque costumas responder também àquela hora. Depois passa um dia, passa outro. E eu a ficar para trás. Ficar com o coração a bater quando o telefone toca ou apita, porque és tu e depois não és. Porque hoje tens trabalho, porque amanhã estás com os amigos, porque depois é o teu dia de fazeres qualquer coisa. E eu a ficar para trás. E eu a deixar de fazer o que quero e preciso, porque estou à tua espera. Passei os últimos anos da minha vida à espera do tempo de alguém. E o meu tempo? E a minha vontade? E a minha necessidade? Acabou, por mim, não consigo mais isto. 

Vais dizer-me que eu já sabia, que nunca me escondeste nada, que eu aceitei as tuas regras. Tens razão, tens toda a razão. Por isso é que é uma violência que faço contra mim mesma. Por isso, hoje é o dia em que paro de me fazer mal. 

Não te posso prometer que voltaremos a falar. O mais certo é que não volte a acontecer. Entenderás. Talvez não. Outra incógnita. Mas eu tenho de ir,

Adeus.


Introduziu o destinatário, clicou em Enviar. Enviar esta mensagem sem assunto?, ok, não se resume uma vida em duas ou três palavras. A sua mensagem foi enviada. Respirou de alívio. Pesquisou todos os emails que trocaram, selecionou-os e clicou em Apagar, depois foi aos Contactos e removeu o endereço dele. A manhã continua tranquila, amanhã dizem que vai estar sol.



17 comentários:

  1. You know that i like you, and i suport you as much as i can.

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    1. You are my dearest. :)
      But you know this is fiction, don't you? Maybe it's not, maybe it is... who knows?

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    2. I only know that fiction or not, it's a well written text, full of feelings. Real feelings...or not :)

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  2. Custa mas primeiro está a nossa felicidade. E por inteiro, não às metades nem aos bocadinhos. E quando o que nos trás a felicidade só está quando lhe apetece há que partir à procura de uma felicidade que nos encha o coração por inteiro e a qualquer altura.
    Força com a vida e que ela te traga muita felicidade =)

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    1. A felicidade às vezes é apenas estarmos em paz connosco. O resto é um extra. :)

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    2. È bem verdade o que dizes =)

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  3. Gostei muito. A dúvida que permanece, só soma :)

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  4. Espero que seja a primeira, a última e a decisiva. Essas não têm volta e não permitem inseguranças. Espero que ela se tenha libertado e que se mantenha firme porque decidiu por si e pelo que acredita, porque pensou apenas em si e porque sabe que muitas vezes temos que ser egoístas para sermos felizes, amar-nos primeiro e depois permitir que nos amem. Espero que com esta decisão ela se tenha oferecido à felicidade e não à angústia. É para isso que lutamos.

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    1. Eu também espero que sim, que seja desta que ela vai à vida dela e pega nos fantasmas todos e os fecha no armário e volta a ser ela por inteiro.

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  5. Identifiquei-me bastante com o texto. Tenho de admitir que já ando farta das minhas decisões supostamente definitivas.

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    1. No que me diz respeito, às vezes, demoro muito a tomá-las, mas salvo raras exceções quando o faço é de vez. Tem alturas que não quero que sejam radicais, tem alturas em que preciso. Enfim, o nosso umbigo tem de contar mais no que nos diz respeito.

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  6. Rapariga Simples que de simples nada tens... Colocaste por escrito algo que passa muitas vezes nesta cabeça (e nas de muitas outras pessoas), obrigada! Já fiz o mesmo que essa rapariga, apaguei, segui em frente... O problema são os rascunhos que por vezes ficam esquecidos e nos aparecem de repente e depois... Enfim... Divagações! Só para dizer que gostei muito e para desejar que ela tenha mesmo conseguido seguir em frente e que o Sol do dia seguinte se tenha prolongado por muitos outros dias! (:

    Beijinho

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    1. Eu sou simplesmente complicada, omito a segunda parte para não assustar ninguém. ;)
      Para te tranquilizar, posso dizer-te que todos deixamos rascunhos, aliás, esta história é produto de muitos rascunhos. Foi sendo reescrita (não necessariamente como a escrevi, sejamos justos, há ali muita divagação fora da realidade), até à simplificação. Se é um adeus definitivo? Não sei, melhor eu não quero que seja. É apenas um adeus a uma parte, essa sim, que tem de acabar.

      Continuo à espera do sol, está tímido, tadito. Estes primeiros oito meses do ano foram particularmente negros e tempestuosos. Mas isso é outra história completamente diferente. :)

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  7. Estou fã. E como dizia num comentário que comecei a escrever, mas acho que desapareceu, o teu texto está muito cheio de sensações e a tua descrição é tão vivída que é fácil encher o que escreves de imagens! Mas só escreve assim quem também já viveu muito, acho! De resto acho que troco uma coisa em relação à rapariga do texto. Porquê acabar com alguma coisa num dia já pesado? Pode ser bem dramático, não?

    «"é assim e assim, por isto e por aquilo" e pronto» - apesar de ser rapariga de muitas palavras quantas vezes já não quis que elas se condensassem numa só frase que explicasse tudo de uma forma certeira?

    O que vale é que há sempre a esperança dos dias de sol!

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    1. Fico muito contente que te seja fácil encher o que escrevo com imagens, sério que fico. Tenho algumas dificuldades em desenvolver as coisas que imagino, fico sempre com a sensação que fui demasiado direta - talvez por isso divague mais por arremedos de poemas.

      Não sei se já vivi muito, sei que o que vivi foi no limite, com pessoas que me marcaram e mudaram a pessoa que fui até as conhecer. Como acabaram todas mal, deu nisto. Mortificação, atrás de mortificação.

      Vou ter de discordar contigo, ela não acabou num dia pesado, foi num dia ameno, exatamente pela razão que apresentas. ;)

      Percebi que não há frases certeiras. Mesmo quando eu penso que o que quero dizer não pode ser mais claro, mais direto, mais eficaz, descubro que afinal ainda vou gastar umas quantas palavras a explicar-me em profundidade. No entanto, essas frases certeiras funcionam muito bem na ficção, nunca falham. :)

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