22/08/2012

Uma manhã tranquila (cont.)


Podemos prever o dia em que o caos começa, com dificuldade acertamos no dia em que atinge o auge. Desenha-se nas pequenas coisas, nos pequenos esquecimentos, nos pequenos desleixos, nos pequenos sarcasmos que se intrometem nas conversas em público. Começa sempre com pequenas coisas, não vem de repente, não acontece de imprevisto. Há sempre a possibilidade de prever e de evitar. Nem sempre se presta atenção aos indícios, nem sempre se evita.

Ele sabia que ela estava a pensar acabar com aquilo que tinham - não tinha como definir melhor a história que ambos arrastavam há anos, uma história que começou num acaso, se desenvolveu entre o tumulto e resistia por causa de uma frustrante química que os queimava em fogo lento. Ia deixá-lo. Percebia-o pelas conversas que iam encurtando e circulando à volta de banalidades. Percebia-o pela forma como se despedia e pelos sorrisos que rareavam. O caos estava no início e ele não tinha como o impedir. Compôs o cabelo, ao espelho. Lembrou-se das mãos delas a desenharem aquele mesmo gesto. Suspirou. Estava eminente, isso ele sabia.

Ela tinha-lhe dito muitas coisas, ela tinha deixado muitas por dizer. Ninguém diz tudo, ninguém sabe de si com certezas absolutas. Ele dissera mais do que tinha querido e calara mais do que era necessário. As palavras são sempre de menos quando se quer convencer alguém a ficar, são sempre de mais quando se quer explicar o que não tem explicação. Ele sabia que ela nem sempre estava consciente do impacto que causava nos outros e perdoava-a por isso, por aquela mistura de inocência e ignorância que a faziam ser assim, como ele gostava. Pegou no livro descuidadamente poisado em cima da mesa. Tinha-o ido buscar por muitos motivos, porque gostava de o ler, porque era do seu autor preferido, sem admitir, contudo, que o tinha feito porque ela também o tinha lido e tinha citado uma frase desconcertante que o estremeceu. Entre eles não haveria Paris, mas tinha havido Lisboa e aquele livro e outros do mesmo autor e pequenas confidências que valiam o mundo. Estava a secá-la, isso ele também sabia.

Era um solitário. Gostava de se sentar no silêncio escuro e pensar, gostava de pensamentos torturantes e tortuosos, gostava de pensar nela. Não gostava quando os olhos dela ficavam tristes e eles ficavam muitas vezes tristes. Esfregou os olhos com as mãos, também ele estava cansado. Tentou concentrar-se na leitura, mas a luz fraca e a dor de cabeça que se insinuava impediam-no de se concentrar. Depois havia as coisas ditas e os mal-entendidos que persistiam, por muito que tentasse esclarecê-los. Acusou-o de a ter como o seu vício privado. Sabia que o tinha dito com mágoa, com deceção. Explicou-lhe que não, que ela não estava a avaliar as coisas como deviam de ser, vícios daqueles tinha tido muitos - quase todos privados - mas nenhum deles era ela. "Sabes que és muito mais do que isso. Os meus vícios posso largá-los bem, que sei que virão outros iguais atrás. Já tu... sei que quando te perder de vez não voltarei a ter ninguém igual. Estás num lugar da minha vida que eu não consigo bem definir, mas sei apenas que é bom e quero que por lá fiques". Ela não acreditava, outra coisa que ele sabia.

Na vida dele não cabiam pessoas. Não precisava delas, tinha muito em que pensar, tinha muito que fazer, tinha compromissos e planos e mais compromissos e ainda mais planos. As pessoas atrapalhavam-no. Gostava de estar com ela, dos beijos que trocavam, da loucura com que ela planeava aqueles momentos roubados ao tempo, de saber que ela o desejava tanto quanto ele a ela. Indiscutivelmente gostava do que faziam quando a porta da rua se fechava. Mas o que o completava verdadeiramente não era nenhuma dessas partes isoladamente, era a experiência de ESTAR com ela, como um todo. Desde o primeiro momento em que diziam olá e trocavam um beijo tímido, até ao último instante em que se despediam com um beijo desesperado, talvez com receio de que fosse o último de todos. Ainda assim, não sabia lidar com a presença constante dela, por isso se esquivava e doseava o tempo que lhe dava. As pequenas coisas somavam-se, como ele o sabia.

Ela estava no limite. O auge do caos. Nada daquilo era justo para ela. O combinado era deixá-la seguir com a sua vida, esperar que ela conhecesse outras pessoas que a preenchessem e lhe fizessem bem. Foi o que tinha tentado fazer durante anos. Deixou-a ir uma e outra vez. Geriu a raiva de saber que havia outros, mesmo que fossem melhores do que ele. Ouviu-a apaixonada, ouviu-a desapontada. Era nestas alturas que complicava as promessas feitas e a puxava, e se puxava, para o lado mais íntimo da sua vida. Estavam a repetir os erros do passado, a deixar que a vontade ultrapassasse a razão, a prometer o que não conseguiam cumprir e, com isto, iam-se envenenando um ao outro. Isto não augurava nada de bom, o que ambos sabiam.

A noite escorreu nas horas com a lentidão de quem não tem por que se apressar, sem vontade de ceder o seu lugar à aurora. Ele sentado, com a roupa da véspera, o livro no colo, a luz enfim apagada, os olhos abertos numa insónia crónica, à espera. A persiana corrida a esconder a timidez do sol que por fim acordara, o trabalhar do computador a sobrepor-se ao silêncio, os olhos abertos, uma calma estranha. Uma hora a procurar com preguiça outra hora. Plim. Uma mensagem na caixa do correio eletrónico. O corpo a levantar-se com esforço, as mãos a abrirem a tampa do computador. O email dela no remetente, nenhum assunto. "Olá".

Por fim, o caos. Mas isso ele já sabia.

12 comentários:

  1. OH :(
    Está tão tristemente bonito.
    Parece-me que futuramente podemos guerrear as duas pelo lugar no top 10 :P ahah

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    1. Não me parece que vá chegar lá, acho que me vão torcer o pescoço. :S

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  2. Sinto-me tentada a pegar neste teu texto e no anterior e a enviar ao suspeito do costumo que encaixa tão bem neste perfil... =X

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    1. Mas aí seria o equivalente a enviar o email com "Olá" no assunto! E não é isso que se quer... ou então é! =S

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    2. Podes partilhar o link, com a desculpa de estares a partilhar simplesmente um blogue de muita categoria (cof cof) e esperar que os implícitos sejam suficientes, sem teres de te comprometer. :)

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    3. Acredites ou não esta história acaba por ir tão directa a esta minha história que colocá-la mesmo que para partilhar um blogue de muita categoria era ser tremendamente explícita! E desta vez não serei eu a mandar o primeiro email! Coisas! ;)

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    4. Acredito que sim. No fundo as nossas histórias (digo, aquela lá em cima) não são muito diferentes umas das outras. Podem mudar as personagens, o lugar, o tempo, que o tema... pois, o tema é o que se sabe. :)

      Se não queres mandar o primeiro email, lá terás as tuas razões. Talvez seja preciso esperar mais um pouco. Eu (digo, ela) é que já não podia esperar mais.

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  3. Era bom um encaixe puzzle, sempre e em tudo. É doloroso quando se vê que as peças que sempre se encaixaram por mais que houvesse uma ponta ou outra estragada, amolecida pela humidade ou descolorada pelo calor, começam a não resistir.

    Queres saber uma coisa engraçada? Já transportando o lirismo do texto quase para uma realidade pensei - "Este tipo está mesmo a precisar de ir ver o filme que eu vi ontem!", mas na realidade o filme era bem básico comparado com a densidade desta história, não tem assim tanto relacionado!

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    1. Podes sempre partilhar o nome do filme, quem sabe não faz efeito? ;)

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    1. Mas associei-o sobretudo pela dificuldade que algumas pessoas têm para assumir responsabilidade pela própria vida!

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