27/08/2012

O sono


São dez da noite e o corpo tem sono. O corpo não está cansado, apenas tem sono, tem vontade de dormir mil anos, mil descansados anos, encantado no encantamento do encanto de não ser consciente enquanto dorme. O corpo tem medo de beijos. E de príncipes. O corpo tem medo de beijos e de príncipes porque o corpo tem medo de acordar. Acordar é igual a estar vivo. Estar vivo é uma fadiga que o corpo não tolera. Quer por isso o sono, deseja Hipnos, embriagado pelas promessas do vazio, receia Morfeu, a semi-inconsciência do sonho. Escuridão. Dormir sem luz. Não incomodar. A luz incomoda o corpo. O corpo tem medo de beijos, de príncipes e da luz. A luz é o impacto da consciência que sacode o corpo, tortura o corpo, afronta o corpo. Pudesse o corpo descansar no silêncio límbico. Silêncio. O barulho ao contrário. A confusão apaziguada. O escape da opressão pressionada contra o corpo. O despertador rasga o silêncio. O corpo não gosta do despertador. O corpo tem medo de beijos, de príncipes, de luz, e de despertadores. O corpo tem sono. O tempo decorrido desde que o corpo começou a desejar o sono, cansou-o. Agora o corpo tem sono e está cansado. O corpo não consegue adormecer. A cabeça teve uma ideia.

4 comentários:

  1. Muito bom. Um pequeno grande texto. Mau grado o despertador, felicita-se a ideia :)

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  2. A história das minhas manhãs :P

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    1. Esta tem sido a história das minhas noites. Ontem deu nisto. :P

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