23/08/2012

Gares do Poente


Tudo o que me podia ter corrido bem ou mal aconteceu numa estação de comboio. Para ser justa e sincera, nem tudo, houve alguns momentos deliciosos em terminais dos autocarros, mas fora esses, as estações dos comboios representam o início e o fim das minhas sofridas relações amorosas. Têm de acontecer. É bom que aconteçam. Nem todas são contos de fadas. Nem todas são descidas aos infernos. Acontecem. Começam, duram o seu tempo e depois terminam. Entretanto há uma série de lugares e um incontável número de coisas que se tornam inesquecíveis. Exagero, não é um número incontável, eu é que me engano e esqueço o que contei e conto as mesmas coisas vez após vez.

Há um conselho recorrente na fase de rescaldo de um amor perdido: nunca voltar ao lugar onde fomos felizes, ou infelizes, acrescento eu. Tentei muito tempo seguir essa máxima sem notar melhoras em lidar com a bagagem do passado que me pesa toneladas. Se o evitar não ajuda, é no enfrentar que se há de ter algum tipo de resultado. Por isso, decidi enfrentar os meus fantasmas e visitar cada uma dessas estações, sentar-me em cada um dos bancos e recordar todos os momentos tatuados no tecido da minha memória, tão profundamente que, por muito que os queira eliminar, deixaram marcas eternas.

Hoje foi um desses dias. Depois do pequeno-almoço, peguei no leitor de mp3, nos óculos de sol, apertei o casaco, compus o cachecol e caminhei todos os passos necessários até chegar àquele banco em particular e me sentar a observar quem passa. Gosto de me sentar a ver as pessoas passar, há uma infinidade de pessoas apressadas a saírem e a subirem para comboios que chegam e partem no tempo de um ai. Trazem malas ao ombro, mochilas às costas, malas de rodas apressadas. Vão concentradas num objetivo que tanto pode ser sair da estação e diluir-se pela cidade, como entrar noutro comboio rumo ao desconhecido ou simplesmente conseguir apanhar o cavalo de ferro que resfolga de impaciência na linha 2, sentido Lisboa.

Gosto do som dos trolleys no cimento, o arrastar cadenciado pelos passos, imagino-os cães obedientes, seguindo os donos pela trela, cheios de vontade de correr pela gare, esticar as pernas, serem por fim livres. Pelo menos aquela bagagem pode ser facilmente poisada. É com notório alívio que os seus donos a fazem descansar ao seu lado. Sei que é assim, sentia o mesmo em todas as viagens que fazia, ansiava pelo momento em que finalmente poisaria aquele peso tremendo que me endurecia os ombros, esquecendo-me dele até à estação de saída.

Se ao menos as malas do passado fossem tão facilmente esquecidas. O assunto das malas e das bagagens deu-me que pensar muito tempo, foi até bastante angustiante, por ter chegado a pensar que nunca me livraria de alguns pesos. Depois a vida muda, a realidade choca-nos e perdemos tudo: as malas, o medo, a coragem, vai tudo. Por uns tempos.

Nestas coisas de malas e bagagens, quem nos conhece nunca é bom conselheiro, nem que trabalhasse numa loja de uma reputada marca de malas de viagem. Já se sabe, os ditos funcionários da loja de uma reputada marca de malas não são os mais indicados para nos darem conselhos sobre as mesmas, não devemos esquecer que eles querem vender, daí que o objetivo seja convencer-nos a levar sempre a mais cara, mesmo que não seja necessariamente a melhor. A opinião deles visa o lucro, é tendenciosa por princípio. A opinião de quem nos conhece visa desvalorizar os nossos carregos. Ou transportamos o passado em grande estilo ou vivemos como se não existisse. Nenhuma das opções me agrada. Resta-me ir substituindo as malas conforme a necessidade, aliviando até o peso de algumas, mas carregando-as sempre nos braços, até doer, para não me esquecer que as minhas decisões têm um preço que pode ser demasiado alto para o prazer que me deram.

Lembro que estava um dia de sol e calor no dia em que me sentei neste banco pela primeira vez. Nesse dia eu intuía já que o fim estava ali ao virar da curva, tão real e destruidor quanto a máquina de um comboio. Inocentemente ignorei a intuição e enchi-me de esperanças. Até àquele dia de inverno, anos depois, muito frio, em que o vento nos cortava os lábios e avermelhava a pele, subia pela roupa e gelava os ossos. Até àquele dia de inverno em que tivemos de nos esconder atrás das placas de informação, para nos abrigarmos daquele vento gelado, até àquele comboio que chegou, até àquele adeus que me pesou nas mãos por tempos que só o medo me impede de medir, e ainda pesa.

Há uma criança a chorar, ao colo da mãe. Acabou de passar um comboio sem paragem na linha onde há de chegar outro que vai parar e onde vai embarcar. A fúria com que passou quase a arrancou dos braços da mãe, fez voar pontas de cachecóis, abrir casacos mal apertados, segurar os sacos e as malas com mais força, fechar os olhos e virar as costas, para minimizar os danos. Mas a criança teve medo, medo que aquela fúria a levasse consigo e o colo da mãe se tornasse uma saudosa recordação do passado, a memória de um lugar onde tinha sido plenamente feliz.

Foi num dia cinzento de inverno que eu disse o adeus mais triste de que tenho memória. Lembro tudo, o estacionamento da estação, a fila para comprar bilhete e as explicações sobre horários, trocas de linhas, preços e o tempo do trajeto. "Não fica cara a viagem". Não ficava. Não se repetiu. Lembro do café em frente, do balcão alto, das mesas de madeira escura, da televisão a fazer companhia ao silêncio. Lembro de nós sentados naquela mesa, à espera que o tempo passasse. Lembro que os teus olhos se escondiam dos meus e eu não sabia porquê. "Tudo o que te disse é verdade. Quero tudo. Quero a sério." Lembro daquele abraço apertado que durou menos tempo que o necessário - devia ter durado uma semana inteira. Lembro que o comboio chegou, as pessoas correram pela gare, eu peguei os sacos. "Quando chegares, liga. Adeus." Lembro tudo o que veio depois e que nunca irei esquecer.

Por trás dos óculos escuros, há lágrimas magoadas que teimam em fugir, sempre que penso nisto. Talvez fosse mais sensato deixar de frequentar estes lugares, melhor seria deixar de lembrar. Há momentos em que o passado me é tão estranho que nem o reconheço, outros em que mal o lembro. Ainda assim, pesa-me horrores e sinto que, mais do que nunca, estou presa neste passado assustador. Parece-me tudo demasiado presente, ao mesmo tempo muito distante, como se as coisas não me acontecessem a mim e eu fosse só uma espectadora de um mal-amanhado teatro de aldeia, onde só há tragédias de faca e alguidar e os atores são piores do que o argumento. 

 "O comboio que vai dar entrada na linha 1 é o Alfa Pendular com destino a...". Vão embarcar. Todas aquelas pessoas sabem exatamente para onde vão. Invejo-as. Eu não sei. Não sei para onde devo comprar o bilhete, nem o número do comboio que me há de levar. Lá vão elas, com mais ou menos bagagem. A vida tem destas coisas, feitas as contas acabamos a levar o passado para todo o lado e as pessoas que conhecemos como uma constante companhia.

15 comentários:

  1. Identificação total mais uma vez com aquilo que escreves!
    (P.S. Decidi deixar de ser parva, ou ser mais ainda... Lá seguiu email para o suspeito do costume!)

    Beijinho

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    1. Não tem a ver com teres sido parva, tem a ver com o facto de ainda não teres gasto todo o sentimento. Se o email seguiu, no fundo, gastaste tudo o que tinhas e sabias que não havia mais nada.

      Espero que os ventos te sejam favoráveis e que sigas viagem, para um destino melhor (onde quer que ele fique). :)

      Um beijinho

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    2. Não foram favoráveis como normalmente neste tema nunca são! ;)
      Mas pode ser que depois da tempestade venha a bonança apesar de tudo hei-de ser sempre uma tremenda optimista! (com uma boa dose de saudosismo e melancolia à mistura!)

      Beijinho (:

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  2. "Nestas coisas de malas e bagagens, quem nos conhece nunca é bom conselheiro (...) as minhas decisões têm um preço que pode ser demasiado alto para o prazer que me deram."

    Não desfazendo, claro está, o restante e belíssimo texto...
    Esta parte, tocou :)

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    1. As malas, a bagagem e a minha impotência (o que me ri agora) sobre o assunto, persegue-me há anos.

      http://uma-rapariga-simples.blogspot.pt/2010/05/todos-transportamos-uma-bagagem.html

      Isto é uma série de conclusões a que fui chegando. Essa é das que mais me dói. Tenho de começar a andar de avião. :p

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    2. E eu adoro andar de avião :D

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    3. A ver vamos se te dou mais uns motivos para voares. :D

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    4. Como sei que "me queres" dar esses motivos vou fazer muita força para que isso aconteça.
      Matavam-se 3 coelhos de uma só vez :)

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    5. Venham os coelhos, tenho aqui uma arma e não tenho medo de a usar!!!!!!! muuuaaahhhaaahhhh
      :)

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  3. Gosto muito de te ler, embora os textos sejam quase sempre de cores algo carregadas. Mas excelentes :)

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    1. Estou a esgotar o meu tempo trágico, Vic, a partir de setembro há assuntos que vão deixar de estar tão presentes. Vai ser tempo de vida nova. :)

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  4. Tens talento, escreves com alma.

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    1. Obrigada, S*. :) São assuntos muito meus, deve ser por isso.

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  5. Texto complexo, com sentimento e com aquele sentimento no ar de... "life goes on".
    Entendi bem?

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    1. Entendes-te, sim, Pin. Apesar de tudo, há outros comboios a chegar, outros destinos. Se isto não for suficiente, ainda há terminais dos autocarros, portos e aeroportos. Nalgum hei de encontrar o rumo. :)

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