03/07/2012

Seis meses é muito tempo e tempo nenhum

Siempre me quederá - Bebe



Hoje preciso fazer uma coisa diferente, um pouco estranha naquilo que são os meus hábitos de escrita e na forma como sempre ludibrio o que quero mesmo dizer, ainda assim preciso. Hoje vou escrever para ti, sabes, mesmo para ti. Tu, não um tu indefinido, mas tu inteiro. Escrever-te esta espécie carta, sabendo que nada te fará conhecê-la ou lê-la, ambos sabemos que Caronte não me deixa passar e eu continuo com os bolsos vazios de moedas. Ainda assim, vou fazer esta ridícula figura de tornar público aquilo que trago comigo há tanto tempo. Alguém disse já que todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Como eu. Como a minha espécie de carta.

Escrever isto é uma tortura chinesa, em vez de gotas que caem em tempos certos e pausados, o bater das teclas, uma após a outra, tentando encontrar sentido no que não sei explicar. O meu teclado... aquele que é igual ao teu, só mais estimado e menos gasto. Lembras-te? Eu lembro, não há um único momento que não lembre e mesmo aqueles que reescrevo na memória vão tornar-se verdade, porque me faltas tu para me dizeres que não foi bem assim.

Estou aqui às voltas com isto. Escrevo e apago, apago e escrevo, porque não quero olhar o calendário. Sabes que dia é hoje?  Saberás e eu também,  seis meses é muito tempo e tempo nenhum, para se esquecer quem se imprimiu tão fundo na pele.

Puxaste-me para um pesadelo que me suspendeu no medo dias a fio. No início, senti muita raiva. Tu não tinhas o direito. Não podias. Não foi justo, para ninguém. Quis gritar contigo, bater-te com fúria, pedir-te que me explicasses porquê. Depois, soube uma coisa que não me contaste e fiquei muito magoada. Não era preciso teres-me escondido, devias ter-me dito, as coisas seriam diferentes, relativamente, não o suficiente. Mas não disseste e eu fiquei com a raiva e a mágoa juntas.

Agora, não sinto nem uma nem outra. Só esta saudade constante que não me deixa esquecer que seis meses é muito tempo e tempo nenhum.

Sabes, às vezes ainda chegam aqui à tua procura. No início vinham mais, depois deixaram de vir. Não sei o que os trouxe cá, terá sido alguma coisa que tu disseste?, terá sido alguma coisa que alguém disse?, que eu disse? Não sei. Se eles soubessem como o meu coração se altera e o ar se prende e os olhos ficam em magoado silêncio quando eu sei que eles chegam. Mas não sabem, ou não querem saber. Isto foi assunto de lana caprina.

Há dias em que sinto vontade de te visitar. Desisto da ideia. Aquelas paredes de pedra e aquele portão de ferro não são o que quero lembrar. Prefiro conservar-te naquela tarde fria e chuvosa em que Ane Brun tocava em círculos no PC e havia uma manta branca e um livro que se lia com vagar e o silêncio e a chuva e a paz que se espalhava por mim. Prefiro assim.

São estas pequenas coisas, simples acontecimentos aleatórios e diálogos silenciosos que me faltam como a vida. São estas pequenas coisas que me fazem sorrir, até rir, e chorar. Tanto. De improviso. Até ficar cansada. Às vezes, procuro um certo vídeo, de uma certa música, só para te vislumbrar e assim parecer menos estranho este tempo. Afinal, para que servem tantas teclas num telemóvel? E faltam-me as tuas perguntas incisivas e os planos de um futuro que se esfumou naquele momento que já é passado.

Quando estou sozinha, digo o teu nome em voz alta. Ouço-me dizê-lo e, por breves instantes, é como se fosses materializar-te no espaço, acabado de vir da varanda, falando sobre qualquer coisa, e estes seis meses fossem um rascunho de uma novela abandonada. Digo o teu nome em voz alta, para não me esquecer que eras gente e que não te criei na minha cabeça. Digo o teu nome, porque tenho medo de me esquecer-te. Seis meses é muito tempo e tempo nenhum.

De todas as promessas que me fizeste, houve uma só que cumpriste. As outras diluíram-se na verdade dos factos. Cada uma deixou marcas por dentro. A última conseguiu ser a mais cruel de todas. Sabes, eu ainda espero... Fiquei por isso, com as mãos cheias de promessas e perguntas - porquê? -, o coração vazio de respostas, as respostas que desisti de querer saber.

Mas eu cumpri todas as promessas que te fiz. Disse-te que não prometo o que não tenciono cumprir, por isso, li o livro todo, texto e paratexto, detive-me com mais carinho nas partes que marcaste, decifrando as tuas razões. Algumas entendi, outras não. Li os outros livros todos também. E perdi o medo.

Perguntaste-me uma vez para que tinha eu um blogue, se havia tão poucas coisas mesmo minhas? Desconcertaste-me, como sempre. Fiquei com tanta vergonha, porque era verdade. "Tens de perder o medo e a vergonha e escrever". Eu perdi. Perdi o medo todo de escrever - até de escrever isto -, a vergonha de me assumir e tenho escrito, também eu com fúria, já não consigo parar. Mesmo que no fim esteja prostrada, mesmo que textos, como este, sejam uma mistura de pathos e catharsis, porque foi isso que a escrita se tornou. Só que tu já não vais ler isto, não vou ouvir a tua opinião, saber se lhes darias valor ou se te ririas com a sua incipiência. E isto parte-me o coração.

Queria tanto não ter perdido este medo e esta vergonha. O preço a pagar foi excessivamente alto.

Olha, o crocodilo laranja (ou a cobra laranja?) perdeu um olho. Não te preocupes, eu colei-lho de volta e tenho-o na estante, à vista, não quero que se danifique apertado entre um livro. Um dia, uma menina que já teve 7 anos vai ver um certo livro e vai-se lembrar de uma certa viagem de comboio e da língua vermelha deste bicho-mostrengo e a justiça será reposta.

Um dia, se tiver filhos, vou-lhes falar de ti, do teu talento, de como cantavas e tocavas tão bem, mesmo sem uma corda na viola. Vou-lhes contar que tu exististe e sabias jogar à bola e sorrias de uma certa forma quando rematavas com mais força e vias a bola passar-me por entre as pernas. Eu tinha de te agarrar muitas vezes, para ta roubar. Vou-lhes contar que gostavas de saber coisas e ficavas muito tempo a pensar nas palavras que aprendias, todas elas eram bacanas.

E vou ter tanta pena que eles não te possam conhecer, nem tu a eles. 

Estou cansada. Não consigo escrever mais nada. Não sei se devo permitir comentários - assim que escrevi isto, lembrei-me de ti, "por que te preocupas tanto com o que os outros dizem?". Mais uma coisa que vou perder. Vai ficar assim, aberto a todos. Já nada me assusta.

Preciso de dar um fim condigno a este texto - carta? -, mais uma coisa que não sei como fazer. Já te disse que me faltas? Tanto! Devo ter dito, se não disse, digo agora: faltas-me. Tanto.

Seis meses é muito tempo e tempo nenhum, para se esquecer quem se imprimiu tão fundo na pele.

15 comentários:

  1. Rapariga, emocionaste-me. Não consigo imaginar a tua dor sem sentir o coração a encolher.. Espero que tenha sido catártico, por isso vale a pena escrever. E espero sinceramente que não sejam precisos muitos mais meses para esqueceres.

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    1. Foi, com muito pathos à mistura, como sempre que penso no assunto.
      Creio que estou mais perto de esquecer, sem contudo o fazer. Pelo menos vai ficando menos pesado, não sei se mais leve.

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  2. Medo de esquecer alguém... é daquelas sensações horríveis (mas que às vezes sabemos que esquecer até não é algo mau e nos fará bem) e deste bocado não adianto mais. E por outro lado, a pergunta por vezes chega a ser "como foi possível esqueceres-me em tão pouco tempo?".

    Eu já senti necessidade de escrever o que sentia, e muitas vezes escrevia. Mas depois... sentia que não era a mesma coisa. A pessoa não leu, a pessoa não sabe. Deixei de escrever, deixei de falar, quando falo não digo tudo e para o fazer, é sempre preciso tomar 50 cápsulas de coragem. E depois, ou antes, dou-me conta que devia ter falado mais cedo. Ou que devia ter continuado quietinha.

    Bom dia :)

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    1. Boa noite. :)

      Entendo o que me escreves, porém, esta situação é diferente. O recetor da minha carta já não está presente (não consigo escrever isto de forma menos arrevesada sem que se me aperte o coração).

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  3. Bom dia!
    Bem estou como a Wendy, emocionaste-me... Está tão profundo que só dá vontade de ir a correr mostrar a "ele" para ler, porque merece ser lido.
    Nota-se o teu sofrimento, o carinho, a saudade... o amor, tudo!
    Quem sou eu para te dizer para o esqueceres? O tempo apagará quando tiver de o fazer.
    Força!
    Beijinhos

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    1. Eu preferia dizer-lhe cara a cara, tal não é possível. Por isso, este texto foi um ato de libertação, já não dava para carregar tudo sozinha.
      Agora, a seu tempo as coisas voltam ao lugar.

      Obrigada e um beijinho para ti :)

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  4. Ainda bem que deixaste aberto a comentários, pois mereces ler palavras que te façam sentir nem que seja um pouco melhor. Fiquei mesmo com o coração apertadinho ao ler o teu texto. Maravilhosas palavras.
    Espero que tudo se componha, da melhor forma :)
    beijinho

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    1. Olá, AngieM, acho que ainda não te tinha visto por cá. Bem-vinda. :)

      As coisas vão-se compor, mais não seja por arrasto. Porque a vida não para e a todo o momento há coisas que nos obrigam a andar para a frente. Este texto também é um pouco esse compor de que falas.

      A ver vamos para o mês que vem.

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  5. Um abraçinho apertadinho e um beijinho na testa querida, admiro-te.

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    1. I'm a mess. Não há muito a admirar.
      Mas aceito o abracinho e o beijinho na testa, como convém. :)

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  6. Escrever é um bocadinho como tomar Depuralina para o espírito.

    Deixa um certo vermelhão no início, mas depois alivia algum peso. Não resolve o problema – pois não – mas durante um tempo sentimo-nos melhor.

    Ou, menos mal.

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    1. É por análises como estas que eu gosto tanto de ti. E por outras coisas também. :)

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  7. Enterneceste-me com esta carta de Amor que nada tem de ridículo.
    Acredito que a vida é feita de momentos e que todos eles passam, mas sempre nos deixam algo. A falta e a dor que sentes vai diluir-se com o tempo e com o passar de novos momentos, mas a lembrança do que viveste nunca a vais perder porque um grande Amor nunca se esquece.
    Poderia dizer-te muitas mais coisas, mas deixo-te só um pensamento... Quem nesta vida teve o privilégio de sentir um grande Amor?... No entanto, e pelo que entendi tu tiveste, e por isso, e só por isso sorri e relembra cada segundo dos momentos inesquecíveis, mas não deixes de viver porque cada dia é único e insubstituível e a tua felicidade será provavelmente a maior alegria que poderás dar a quem já não está, mas estará para sempre dentro de ti...
    Beijos e obrigada pelas tuas palavras, que, para quem como eu lê, fazem pensar no que realmente é importante na vida...

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    1. Obrigada eu, Lua, pelas tuas amáveis palavras.
      Um beijinho para ti.

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