01/06/2012

Porque nem sempre se deve beber do Letes


O silêncio espalha-se como leite derramado pelo chão, a respiração é rápida e leve porque qualquer movimento mais agressivo a pode quebrar. Os olhos perdem-se pelo espaço. Ela não vê nada, não ouve nada, não sente nada, só aquele contínuo de sofrimento que toma conta de todos os ossos e músculos e pedaços de si, aprisionado pelos lábios apertados na força do equilibrio que lhe foge. Não sabe o que pensa. Nega-se à realidade. Às veze veem-na andar, não sabem que são as pernas que a levam, que a carregam sem vontade de voltar. Fecha os olhos, perde-se no tempo.

-  Tens de esquecer e seguir em frente.

Duas orações que a agridem, copuladas na boa-vontade, que lhe abrem bruscamente os olhos e a fazem pestanejar. Esquecer. Seguir em frente. Esquecer. Pensar noutras coisa. Esquecer... O comentário piedoso que as bocas deveriam guardar para si. Não entende o sentido do que lhe dizem. Como é que se esquece? Como é que se continua a viver, fazendo de conta que uma parte do seu passado não existiu? Como é que se substituem as pessoas que se amaram?

Fecha os olhos, aquieta-se, suspende-se do mundo que a rodeia e continua a girar indiferente.

Sente-se agoniada, fisicamente enferma de uma chaga que lhe consome a alma.

Não entende de que serve viver se a existência de cada um é apagada no dia em que morre. Não entende para que se ama, se gosta, se cuida, se tudo o que resta é esquecer. Não entende esta violência que nos torna nada, nem pensamento, nem saudade, nem cicatriz na memória. Que legado é o nosso no mundo?

Ouve-os sem os escutar, os olhos secos. Quer gritar-lhes que melhor seria que nos deixássemos todos, vivêssemos isolados e sem contacto, desistíssemos de nos dar e de querer receber. Melhor seria que fôssemos apenas indivíduos sem nome, tornados lápides e números no cemitério da cidade. Não grita. Olha-os com tristeza e mágoa. Ignorantes! Não sabem nada, não veem que também eles serão esquecidos, que também a vida deles é inútil.

Continua calada, inerte. Num futuro que há de acontecer sem hora marcada, sabe que lamentará menos, chorará menos, sentir-se-á menos magoada. Esquecer, não esquecerá.

5 comentários:

  1. Compreendo a tua dor e indignação. Já dei comigo a sofrer por ter esquecido e a dor é tão intensa quanto a que nos fez esquecer. E o poder de encaixe de quem nos faz este tipo de comentários é extraordinário. É por isto que as pessoas muitas vezes se isolam no seu sofrimento. É para não ouvirem constantemente as barbaridades que se dizem na falta de melhor. Saber gerir os silêncios é uma grande qualidade e para mim é a que melhor me serve.
    Mais um bom texto.

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    1. Este é o único espaço onde vou admitindo o que realmente estou a sentir. Aos outros, mesmo a família, respondo que está tudo bem e sorrio, muito. Eles ficam aliviados. Eu não tenho de me explicar. A serenidade fica reposta.
      À parte disso, estou num esforço de equilibrismo que tem o seu quê de cansativo, lembrar e esquecer apenas o suficiente.
      Mas que a pessoa em causa me falta, isso é inegável. Por tantos motivos.

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  2. "Ouve-os sem os escutar, os olhos secos. Quer gritar-lhes (..)também eles serão esquecidos, que também a vida deles é inútil." - soberbo!

    Não gosto do tipico " é seguir em frente, com o tempo passa", normalmente prefiro que não me digam nada!
    Normalmente, quando me sinto dorida, magoada, destroçada sei com quem falar, pois essa sabe ouvir o meu sofrimento e conforta-me com o seu silêncio :)

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    1. Eu também prefiro o silêncio. Há alturas em que não há mesmo nada a dizer.
      EU tive a sorte de ter muita gente que esteve em silêncio comigo, mas nem todos foram assim. :)
      Isto foi só um desabafo que estava arrumado na gaveta.

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    2. Compreendo, tirar o que está na gaveta no momento certo, muitas vezes ajuda a atenuar a dor!

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