25/06/2012

Monção


O som do telefone estremeceu o silêncio da casa. Tocou uma vez, duas vezes, três vezes… quando é que desligam? Não suporto o som estridente daquele telefone, não desde que deixou de me chamar gentilmente, de me sussurrar “atende, é ele. Não o deixes esperar”, e passou a gritar-me que atenda porque é publicidade, é do trabalho, é a minha mãe! Calou-se.

Preciso de café, de uma caneca de café forte capaz de acordar um morto, preciso de despertar, sentir a energia que me falta, mesmo quando durmo 12horas seguidas. O calor líquido e a cafeína sempre me souberam consolar.

A rotina dos meus dias consome-me e tem-me feito tomar consciência de uma aparente impossibilidade física que é a de estar a andar em duas direções opostas. No momento em que me encontro, sinto-me nos antípodas de mim mesma, como se o dom da ubiquidade me tivesse sido dado por uma qualquer fada madrinha que se atrasou em fadar-me desde o berço. Como foi que aconteceu? Não sei. Mas aconteceu.

Passo os dias rodeada de pessoas, falo com elas, ensino-as, encorajo-as, levanto-lhes a moral, sou a melhor claque que alguma delas teve a sorte de encontrar. O meu telefone não para, o meu nome é pronunciado a toda a hora, relembram-me a montanha de papéis que tenho de ler-escrever-simplificar, passam-me circulares de reuniões e perdas de tempo, sou o epicentro de um terramoto que promete arrasar tudo à minha volta. Ainda assim, surpreendentemente constato que estou cada vez mais sozinha. Todos me querem, mas ninguém me quer na verdade.

Preciso de outra chávena de café. Se ao menos o telefone parasse de tocar…

Olho-me no espelho, a minha pele branca está lívida, as olheiras profundas e os lábios descolorados. Devia ir ao cabeleireiro, mudar o penteado, mudar a minha cara, mudar a minha vida. 

Gosto de acumular tralha. É um facto, extensível a grande parte dos seres que se dizem humanos, e desde pequena que o faço e guardo um sem fim de objetos a que chamei "tesouros", "preciosidades", "recordações". À medida que cresço, essa tralha acompanha-me em forma de peças de roupa em duvidoso estado, mas que ainda hão de ser moda; potes de asas quebradas; tampas sem frascos e frascos sem tampas; pedaços de tecido, botões, molduras que só precisam de um pouco de cola, espelhos lascados, ratos de computador cujo cabo ainda pode ser útil, eletrodomésticos vários, enfermos alguns, cadáveres a maioria; despensa, escritório, garagem cheia de nadas que ocupam todo o espaço e deixam de fora o que é realmente importante.

Maldito telefone que não se cala! E a minha pele cada vez mais triste, mais pálida…

Tenho de me livrar dessa tralha, arrumar a casa, reorganizar tudo, arejar o que é importante. Simplificar!

O mesmo com o coração. Atulhei-o com amizades doentias, sentimentos de rejeição, amores que não me quiseram, fragmentos de memórias menos boas, pedaços de mágoas, algumas angústias, medos q.b.. No somatório disto tudo, sobra-me pouco espaço para novas amizades, novos amores, novos sentimentos, até novas dores.

Esta falta de espaço isola-me, ou são os outros que me afastam? Dizem que sou complicada, que deveria viver a vida ao momento, num absurdo carpe diem que só serve para desculpar a irresponsabilidade! Querer dá trabalho e as pessoas são muito mais interessantes quando tudo está bem. As perguntas de circunstância “como estás?” aterrorizam-se que lhes respondam “mal, muito mal”. Quererá de facto alguém saber como o outro está, como se sente? E por que tenho eu de carregar o peso da miséria alheia, quando o meu peso me esmaga e a minha miséria me sufoca?

Ninguém quer saber de ninguém. A menos que se chame Dona Clarinda e exerça a profissão liberal da coscuvilhice pro bono. Pelo que passo os meus dias a dar, dar, dar, a dar-me e o que eu recebo em troca não equilibra os pratos da balança. Perdi já a conta das vezes em que os estou a ouvir, sorrindo, dizendo o que é certo e a minha mente vagueia por outros sítios, procurando outras pessoas, outros lugares, outras conversas. 

Há alturas em que as coisas pesam pesos terríveis. O momento antes de dormir é muitas vezes uma mistura de estranho e doloroso. Preciso de um espaço, de um momento, de uma bolha de ar onde possa respirar e sentir que estou viva. Preciso de largar o meu lastro, arrumar a casa, a vida, arrumar-me a mim.

O meu coração era enorme, tinha o tamanho do mundo, agora já não. 

20 comentários:

  1. Uma vez disseram-me que a desarrumação em que o nosso espaço se encontra é uma extensão da desarrumação da nossa cabeça.

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    1. Concordo em parte, já que preciso de ter as coisas arrumadas, para me sentir bem e sentir que dentro de mim tudo está no sítio. Discordo na parte em que, se assim fosse, eu era das pessoas mais organizadas na cabeça à face da terra! (sim, sou um bocado obsessiva com a arrumação :p)

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    2. Eu não concordo totalmente com o que me disseram. Apenas acho um ponto de vista interessante, tendo em conta que sou desarrumada num plano físico mas preciso de ter a cabeça arrumada para conseguir simplesmente existir. Mas achei que se adequava ao teu post, que deixa-me que te diga, achei maravilhoso.

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    3. Obrigada. :) Estava escrito há muito tempo, hoje pareceu-me um bom dia para o partilhar.

      Sabes, tenho um amigo que para se sentir arrumado precisa de algum caos à sua volta. Vá-se lá entender as "manias" de cada um. :)

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  2. Ninguém que saber da miséria alheia. É que a sua própria já lhe chega. E as coisas vão-sr agravando de tal modo, que a indiferença se torna um hábito. Gostei to texto. Tocante.

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    1. Não posso dizer que leve a mal. Há dias em que o meu peso já é tanto que, se alguém se atrever a pôr uma pluma que seja, eu colapso. O resultado disto é que é um bocadinho doloroso.

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  3. "...já se sentia na voz de Gánia aquele grau de irritação em que a pessoa se compraz por estar irritada, entregando-se sem controlo à sua fúria e com deleite crescente..."


    Não fazes mais do que te consumires, à vista desarmada.

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  4. Disseram-me isto aqui me cima, em tempos.

    Não me serviu de grande coisa, apesar de lhe dar razão. Para além da lembrança episódica de lhe dar razão, claro.

    Aqui te passo. Na esperança e desejo que te sirva mais do que a mim.

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    1. Não me servirá de grande coisa, visto que uso muitos destes momentos de comprazimento para ter ideias. :)

      Mas não deixa de ter toda a razão.

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  5. Há-os, aqueles que querem saber de nós.
    Pode ser um(a), o que tem termos apenas uma pessoa que quer realmente saber se estamos bem? O conforto de 3 pessoas seria melhor?

    Por outro lado há vezes em que não queremos o conforto nem de uma formiga..

    Muito bom texto!

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    1. Acredito que seja esse realmente o meu problema (perdão, o problema da rapariga do texto), não querer o conforto de ninguém ou querer apenas o conforto de uma pessoa.

      Acredito até que os amigos se revezam na grande tarefa de se preocuparem connosco. É justo, eu também não consigo preocupar-me com todos ao mesmo tempo, vou escolhendo um ou dois de cada vez. :)

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  6. O teu coração continua o mesmo. Só tens do reencontrar.
    Bonito texto. E deixa de ser pieguinhas, que há muita gente que te estima, porque os ajudas no dia-a-dia.

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    1. Acabei de o sentir bater, debaixo da mão direita. Acho que é um bom sinal. :)

      Vou-te contar um segredo, lembras-te daqueles textos em pdf que te mandei? Ora bem, antes de ter chegado ali, este foi um dos inícios. Curiosamente, está cheio de coisas pequeninas que já tinha escrito aqui e foi construído à volta de um texto que se chama 'O coração também precisa de ser limpo'.

      Não estou a ser pieguinhas, sem disso muito bem. Aliás, se ainda aqui estou a teclar e sobrevivi a estes meses é exatamente por isso, por causa das pessoas que me estimam e que eu estimo tanto ou mais.

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  7. Nunca mais chega a ginja... :)

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    1. Mais um mês, Señor B. ;)
      Ontem o meu pai conseguiu salvar 4 ginjas e trouxe-as para acrescentar à garrafa. Na verdade, só lá pus duas, as outras foram comidas inadvertidamente por mim. :$

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  8. ai a hora de dormir... que pesadelo de olhos abertos, cravados na escuridão...

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    1. Aquele momento terrível em que o corpo quer dormir, precisa de descansar, e a cabeça não deixa.
      Hoje foi uma noite dessas.

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  9. Alguém ainda vai levar uma catanada! E não és tu... talvez o telefone...
    Porque diabo escreves tão bem a tristeza? :((( Aiiiiiiii.

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  10. À vontade, a porcaria do telefone não funciona em condições mesmo. lol

    Li uma vez uma entrevista do Rodrigo Leão, não sei onde, em que lhe perguntaram algo parecido, se não me engano sobre o cd 'A Mãe'. A resposta foi simples e surpreendente, "saem-me melhor as músicas tristes", foi aqui que eu percebi tudo: ou textos tristes, ou textos furiosamente cínicos, o açucarado e o cómico não são a minha especialidade.

    Olha só como eu me lembro do nome do músico e de uma coisa que ele disse. Ainda deve haver remédio para mim. ;)

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  11. Rapariga, és uma música de Radiohead.

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