26/06/2012

A minha avó

A minha avó sorri-me do papel da fotografia em
que habita, numa moldura em tons dourados e rosa pálido.
A avó que me sorri do papel tem ainda o rosto
de menina que não teve tempo de ser mulher,
entretida que ficou a pousar para a fotografia que a
aprisionou no dia em que a Lei lhe deu permissão
para crescer. A avó que me sorri do papel tem
os meus olhos – ou sou eu que tenho os olhos dela? – a 
mesma forma, a mesma cor acastanhada de escuro,
arredondada e grande. Partilha comigo o nariz, o feitio da testa, 
o jeito do cabelo apanhado e os lábios, mais fino o de cima,
mais cheio o de baixo. A avó que me sorri do papel, sentada à 
janela daquela moldura bonita, não sabe de mim, nem do
que nos aproxima, não sabe que são minhas também as suas 
pernas, de coxas cheias, apenas mais longas. A minha
avó sorri, mas eu não. Tenho nas mãos os brincos
dela, aqueles que ela julga usar no retrato em que
sorri, e sinto saudades dela, a avó que eu não conheci,
que não sabe de mim, que não sabe dos outros netos, que
não sabe que o filho hoje também é avô. A minha avó,
sorrindo no papel, foi-se embora cedo demais. 23 anos era
só o início do tanto que ainda havia para viver.

10 comentários:

  1. Por vezes confundimos-nos com as fotografias...

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  2. E o estranho que é ter saudades de alguém que não chegámos a conhecer?
    Basta as histórias que ouvimos contarem da pessoa, para , por vezes, nos sentirmos mais próximos :)

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    1. É muito estranho mesmo. Para além das óbvias semelhanças físicas, também seríamos parecidas no carácter. Outro ponto em comum, a vida não foi meiga para nenhuma das duas.

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  3. Muito bonito. Nestas alturas gosto de acreditar que a tua avó leu o que escreveste.

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  4. As pessoas perpetuam-se. Através de histórias, palavras, atos...

    E dos genes também. Onde quer que esteja, ela ficará feliz em saber o belo trabalho que os seus genes fizeram :)

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    1. Ah, os genes! Fizeram um grande trabalho, apesar dela ser pequenina. :)
      Que bom que a simples deslocação de um adjetivo permita dizer o que se quer sem se comprometer. Isso é que é um belo trabalho. ;)
      Vou partilhar consigo, anónimo, uma vontade: ler. É, apetecia-me ler uma coisa em grande, mesmo que desse trabalho. lol

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  5. Sabes, quanto mais escrevemos maior é a probabilidade de descobrirem que, afinal, não escrevemos tão bem quanto as frases soltas fazem crer... E quem diz escrever, diz fazer outras coisas...
    Ass: O Anónimo de há bocado.

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    1. Não creio. Já ficou provado por A+B que a prosa é boa. Não te esqueças que as conversas, mesmo as escritas, são como as cerejas. Às vezes aparecem umas verdes, outras podres, outras com bicho, outras muito maduras, pares, trios, tudo na mesma taça; ainda assim não impedem que continuemos a comê-las com toda a alegria; ainda que nos possam vir a fazer mal.

      Quanto às outras coisas depende. Acredito que a prática trará a necessária perfeição. Ainda ontem mo disseram, auspiciaram-me até grande futuro... na arte da costura. Pelos vistos, tudo começa por ser simples, até rústico, depois aperfeiçoa-se e daí resultam grandes trabalhos à moda, digo, de modista. :)

      Pratique-se então, a conversa, a escrita, a costura e o mais a que pudermos lançar mão de fazer.

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