14/05/2012

Não me fales da morte

Não me fales da morte. Não quero que me fales da morte, que digas que fulano morreu, sicrano já não está entre nós, beltrano acabou de partir. Não te consinto que me informes da necrologia. Deixa-me viver com a ilusão de sermos todos eternos, deixa-me continuar a acreditar que o fulano e o sicrano e o beltrano ainda respiram e riem e choram e vivem.
Não quero que me fales dos mortos. Eles não estão mortos, eles estão vivos. Se pudesses olhar-me o coração saberias que assim é. Se pudesses sondar-me o pensamento, não duvidarias. Os meus mortos estão vivos, todos eles, nem um esquecido. Estão-me nas mãos, eu não os deixo ir. Estão-me no sangue, respiram comigo.
Não me fales da morte. Não quero que me fales da morte. Não to consinto.

4 comentários:

  1. Gosto tanto da maneira como escreves, Keep doing!

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    1. :) Obrigada.
      Vou continuar, pelo menos até ao dia em que não tenha mais nada para dizer, que eu não sei escrever só porque sim.

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  2. Concordo. Gosto muito da tua escrita, da tua sensibilidade e franqueza. E acredito que escrevas até que as tuas mãos te permitam e a tua cabeça se arrelie, porque é uma necessidade e uma paixão. Não quero ser invasiva mas transpareces tudo isto quando te exprimes. Obrigada por nos prendares desta forma.

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    1. Não estás a ser invasiva :), mas deixaste-me sem palavras.
      Escrever tem sido, nos últimos meses, uma necessidade muito grande, para entender as coisas, para largar o lastro que me pesa toneladas, porque sufoco com as palavras que ficaram por dizer e eram tão importantes. Acho que posso dizer que tem sido matar ou morrer.
      Não consigo ter distanciamento crítico do que escrevo, também não é nesse sentido que o faço. Era preciso que perdesse a vergonha de assumir o que escrevo, só não precisava de ter sido de forma tão chocante.

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