15/05/2012

Deixem os vivos enterrar os seus mortos


The love that cannot be - Dead Can Dance

Desde o dia em que nascemos que lidamos com perdas, com a finidade das coisas.
Desde o dia em que nascemos que deveríamos estar preparados para a morte.
Mas não estamos.
Nunca estamos.
E o correr dos nossos dias vai somando mortos à nossa vida.
Uns morreram.
Outros estão vivos, mas mortos para nós.
A uns diremos Thalita Kum.
A outros poremos uma pedra em cima.
Quer uns quer outros vão levando pedaços da nossa vida com eles, vão-nos deixando menos vivos e mais mortos, até estarmos mortos de vez.

Hoje enterrei o meu morto.
Pus mais uma pá de terra.
Pus-lhe uma pedra em cima.
Nunca mais lá voltarei.
O meu morto não terá flores.
O meu morto não terá visitas.
O meu morto terá apenas o meu dolorido luto.

Hoje comecei a prantear o meu morto.
Muitos dias virão para o prantear.
Até ao dia em que não haja mais nada para lamentar ou sentir falta.
Até ao dia em que outros vivos vão entrar na minha vida, mesmo que se tornem, também eles, os meus mortos.

Desde o dia em que nascemos que lidamos com perdas, com a finidade das coisas.
Desde o dia em que nascemos que deveríamos estar preparados para a morte.
Mas não estamos.
Nunca estamos.







[este texto foi escrito pela primeira vez a 23 setembro 2008, publicado neste espaço a 13 de maio de 2009, mas nunca me fez tanto sentido como agora, porque nunca esta morte tinha sido física. contra todas as expectativas, hoje foi dia de prantear.]

3 comentários:

  1. Quando são mortes fisicas nem sempre as pranteamos no momento, isso não dignifica menos o morto, não lhe tira nem lhe imprime mais significado.

    Quando as mortes não são fisicas, para mim, são muitas vezes mais insuportáveis, mais intoleráveis.

    Mas qualquer uma delas, têm um tempo para que as choremos? Não!
    É imprevisivel!

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    1. Já passei por muitas perdas emocionais, uma delas levou-me 2 anos a ultrapassar. Aliás, este blogue existe por causa dela. Durante muito tempo vivi no medo de não conseguir avançar, de ficar presa àquilo o resto da vida, até me conformei, porque eu não desligava da situação e não era justo começar novas relações com a cabeça noutro lugar. Posso dizer-te que sofri horrores, muitas noites mal dormidas, muitas perguntas, muita mágoa até. Um dia, sem saber muito bem como, senti-me livre.

      Este ano, passei pela outra perda, a física, que foi também emocional, e nada, mesmo nada do que já tinha sofrido, me preparou para aquele desapego, aquela impotência, aquela dor profunda que tem dias que nem me deixa pensar.

      Quando tu sofres uma perda emocional, há sempre uma secreta esperança de a vida dar muitas voltas e talvez possa haver outra oportunidade, pelo menos sabes que até podes voltar a ver a pessoa e, se tudo correr bem, mais dia menos dia aparecerá outra pessoa e tu avanças.

      Na morte, quando é de pessoas que amamos mesmo muito, nada consola. O que dói mesmo é saber que nada nos fará rever aquela pessoa, as voltas da vida não a trarão de volta, acabou. E como é que tu aceitas a nova realidade? Como é que tu te mentalizas que aquele féretro no meio da capela tem aquela pessoa que ainda há dias estava a conversar contigo, viva?

      Não será assim com todas, concedo.

      Mas se souberes como se faz, explica-me. Eu ainda não consegui entender. :(

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