26/03/2012

Scribbling on the sky the message He Is Dead*

Há uma grande dificuldade em assumir as perdas como elas são. Floreiam-se os factos com metáforas mais ou menos gastas. Cruza-se a semântica da morte, com a semântica do fim amoroso, presta-se o cruzamento a grande confusão - Ele partiu, ele foi embora, ele não volta, nada será como antes... e o leitor a imaginar que foi mais um romance que chegou ao fim.

Os amores acabam. Manifesta-se a perda em textos longos e sentidos, a culpa é quase sempre de quem vai, a inocência de quem fica. A poesia de perda amorosa enche páginas, porque O amor é fogo que arde sem se ver** e se tu viesses ver-me hoje à tardinha***, tudo voltaria ao que era. A infindável banda sonora de quem canta o que sentimos e canta como nos deveríamos sentir espalha-se pelos mundos virtual e real - a mesma música ouvida à saciedade. As investigações privadas, para saber como o outro está, o vaguear pelos mesmos espaços na esperança de um reencontro, as vinganças de quem quer mostrar que já está noutra. Tudo acabou, mas tudo é possível.

Depois há a morte. Ele realmente partiu, foi embora, não volta e nada voltará a ser como antes. Mas não há culpados nem inocentes, só a vida a ser vida na sua estranha forma de ser. A poesia não chega, a música não consola. Não há lugar a investigações, reencontros ou vinganças. O silêncio como companhia. Tudo acabou, nada mais é possível.




* W.H. Auden, Funeral Blues
** Luís Vaz de Camões, Amor é fogo que arde sem se ver
*** Florbela Espanca, Se tu viesses ver-me 

4 comentários:

  1. Não é por nada que se diz que só não há remédio para a morte :(
    Beijinho*

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E o tempo é o único remédio para os que ficam...

      Outro para ti :)

      Eliminar
    2. O tempo não vale de muito para certas mortes... Sendo que a morte é a morte e nada a fazer quanto a isso, a morte da minha Mãe é algo que, passados quase 20 anos, ainda dói tanto, ou mais, do que doeu na altura. Não se substitui. Não acaba a saudade. Sente-se cada vez mais a falta, em cada situação que surge.

      Eliminar
    3. Secretamente é disso que tenho medo, que esta dor não passe, que vá sempre estar comigo, porque cada vez que me lembro da pessoa ou de alguma coisa a ela ligada as lágrimas caem-me dos olhos sem esforço. Lágrimas que escorrem em fio e me molham a roupa.
      Por isso, evito cada vez mais pensar, pegar no que ficou...

      Eliminar