09/02/2012

Somos o que somos



E fica implícito que por isso mesmo podemos ser umas excelentes pessoas ou uns grandessíssimos trampalhos.

Confesso que estou há uns bons dez minutos a olhar para a última palavra do parágrafo acima sem saber muito bem se a deixo ficar ou se a substituo por outra que seja mais elegante à vista, menos ofensiva à leitura, mais educada ao gosto. Decido que não, é aquela mesma.

Voltando à ideia, antes que me disperse a olhar as atualizações do Facebook. Somos, pelos vistos, o que somos e com este enunciado tão cheio e vazio de signifcado justificamos as nossas atitudes-palavras-decisões como se de uma inevitabilidade se tratasse.

Não é sem espanto que observo que o referido argumento auxilia o nobre povo, não quando em causa estão excelentes pessoas, mas quando estão em causa gradessíssimos ____________________ (preencha, sff, o espaço com a palavra que mais lhe aprover, para eu não ter de escrever duas vezes trampalhos em tão poucas linhas de texto).


Ou seja, não fugimos ao fado, porque somos o que somos.
Não mudamos um milímetro, porque somos o que somos.
Não choramos de raiva, de frustração, porque somos o que somos, uns fortes e os homens não choram.
Não amamos com os olhos fechados e o coração aberto, porque somos o que somos, amamos de coração fechado e olhos abertos, não vá aparecer alguém mais interessante para amar.
Não planeamos a longo prazo, porque somos o que somos e nada é eterno.
Não lutamos pelo que queremos, porque somos o que somos e, se o que queremos fosse realmente para nós, nem seria preciso lutar.

E neste processozinho medíocre de vivermos segundo as disposições da nossa naturezazinha humana, previsível e tão bem justificada por qualquer coisa que nem sabemos muito bem explicar, mas que nos é tão natural que nos socorremos dela cada vez que nos põem em causa, deixamos à nossa volta um rasto de destruição que preferimos ignorar.

Os estropiados emocionais que agonizam às nossas mãos, não se veem, não se sentem, não nos existem, porque os cobrimos de poesia, tornamo-los personagens pitorescas dos romances menores que escrevemos nos dias que nos correm.

E se algum se queixa, se algum se indigna, se algum nos quer fugir da folha e nos pergunta "quem és tu, ignóbil autor?", nós somos o que somos.

4 comentários:

  1. Tens que me dar razão. A tua escrita é meio abstracta.

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  2. Nunca questionei a razão da tua opinião. Ela é sempre propositadamente assim, cada um que leia lá o que entender, eu cá sei do que se me trata. :)

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  3. Muito fixe o Blog vou seguir »»»

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