27/01/2012

Deixa-te de merdas, meu, não sejas assim.


Monólogo

Digo-te uma coisa:
conheci uma rapariga mesmo engraçada.
É da província,
da Atouguia da Baleia,
e é mesmo bonita.
Tem cabelo de sereia.

- Deixa-te de merdas, meu.
Quais cabelos de sereia?
Já estás a ver como vais
desviar a miúda.

É o que te digo,
gostei dela.
Levei-a às palmeiras da Foz do Douro.
Ela bebe pouca cerveja
mas ainda bebeu umas duas,
comemos amendoíns picantes
e ouvimos os Roxette.

- Deixa-te de merdas, meu.
Tu e esse teu programa xunga.

Ouve o que te digo,
a rapariga estava bem disposta
e eu estava a gostar dela.
Olhei-lhe para o cabelo
como quem lhe toca nas pernas
e depois toquei-lhe nas pernas
como quem lhe olha para o cabelo,
e isto é importante,
mas tu não percebes isso.

- Deixa-te de merdas, meu
e eu não sei do que tu gostas?
É de veres mulheres com mulheres.

Ouve lá,
tu cismaste com isso.
Contei-te uma vez uma história
... não sei quê...
e tu cismaste com isso, percebes?
Gostei mesmo desta rapariga.
Sinto-me à vontade com ela,
gosto dela e ela gosta de mim
e pronto, porra.
Depois é bonita, é meiga,
sinto-me bem disposto quando estou com ela,
sinto-me descontraído, pá.
E digo-te:
tem umas sardas mesmo sexy.
E além disso é de uma terra engraçada,
Da Atouguia da Baleia.

- Deixa-te de merdas, meu,
não sejas assim.


Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Dióspiro. Poesia reunida 1977-2007.

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