29/12/2012

Ainda que tu estejas aí e eu esteja aqui



Ainda que tu estejas aí
e eu esteja aqui estaremos
sempre no mesmo sítio se
Fecharmos os olhos serás sempre tu
e tu que me ensinarás a nadar
seremos sempre nós sob
o sol morno de julho e o véu ténue
do nosso silêncio será sempre o
teu e o teu e o meu sorriso a cair
e a gritar de alegria ao mergulhar
na água ao procurar um abraço que
não precisa de ser dado serão
sempre os teus e os teus e os meus
cabelos molhados na respiração
suave das parreiras sempre as tuas
e as tuas e as minhas mãos que não
precisam de se dar para se sentir
ainda que tu estejas aí e tu estejas aí e
eu esteja aqui estaremos sempre
juntos nesta tarde de sol de Julho
a nadarmos sob o planar sereno dos
pombos no tanque pouco fundo da
nossa horta sempre no tanque fresco
da horta que construíram para nós
para que na vida pudéssemos ser
mana e mana e mano sempre.

em A criança em ruínas, José Luís Peixoto

28/12/2012

O meu Facebook reza assim

Eu sei que quem me lê passa horas incontáveis a imaginar aquilo que eu escrevo no FB e já remexeu o dito à procura da página do blogue, só para poder ter uns momentos de descanso. Mas não acha, porque não existe e o meu canto lá é só para alguns (que diminuem a olhos vistos). Por isso, e como sou uma alma generosa, deixo-vos espreitar as fabulosas frases que escrevi este ano que ainda por aqui agoniza.

São elevados cadinhos da melhor literatura contemporânea (e daí...).


Só mais uma coisinha, a despeito do assumido, voltei mesmo a mudar a disposição da sala. :D

27/12/2012

Os mortos não bebem

Não é verdade. O meu morto bebe-me todos os dias. Um pouco mais de cada vez. 
Pegou em mim inteira e dispôs-me numa linha longa de pequenos copos de vidro, todos iguais, a bem do equilíbrio estético, numa transparência cintilante de matéria não terrena, em cima de um balcão de eternidade. Pouquinho em cada um, é preciso beber devagar, para não perder a clarividência. Pintou-me de vermelho rubro e amarelo ambar, aumentou-me o grau e assim me degusta entre pensamentos de compreensão holística. Até não sobrar mais nada.



* Título retirado do filme Mortinho por chegar a casa, de Carlos da Silva e George Sluizer.

26/12/2012

Pai Natal, para o ano...

EXIJO uma máquina de lavar loiça em casa dos meus pais!
As mãos estão uma desgraça, as unhas uma miséria e a minha cara era mais ou menos aquela, sempre que alguém dizia "ainda falta mais isto".


24/12/2012

Eu e o presépio cá de casa

Desejamo-vos um Feliz Natal, o que quer que isso seja, como quer que vocês o entendam, com quem vos aprouver. 
Como podem ver, o meu presépio singelo não tem burro, mas tem um galo e um porco. Só porque eu gosto de ser do contra (e era o que vinha na caixa).

Ho ho ho! Merry Christmas!!

22/12/2012

I wish I had a river I could skate away on


Tão bonito. E é quase Natal. (:

21/12/2012

Deixem-me contar-vos uma coisa que vocês não sabem

Apesar de toda as emoções espiraladas que ando a sentir, estou há um valente par de horas muito bem disposta, o que é bom, porque desperta em mim o lado fofinho e confidente que poucos veem. 

Ao longo destes anos, aqui no blogue, já vos contei muita coisa, a maior parte ninguém percebeu (era mesma essa a intenção), outra grande parte foi facilmente percebida, e hoje apetece-me falar-vos das minhas crianças.

Durante nove anos, fui uma espécie de catequista (digo-vos isto assim, para que entendam, uma vez que não sou católica) e guardo desses tempos uma saudade imensa. Passaram pelas minhas mãos e colo e abraços uma série de miúdos que hoje me enchem de orgulho quando os vejo grandes, a fazer coisas, a namoriscar uns com os outros até.

O melhor desses tempos não era o que eu lhes ensinava, mas aquilo que eu aprendia quando eram eles a explicar os grandes mistérios da vida. Bastava um bocado de tecido e umas cartolinas, uns colares e muita imaginação para se ser tudo. Claro que os teatros nunca eram como se ensaiava, eram melhores, porque eram eles na sua inocência a ser simples.

Ao ver este vídeo, não pude deixar de me rir, porque nos revi em muitas coisas.
Independentemente da vossa cor religiosa, digam lá se os miúdos não têm estilo a contar e a dar vida ao que sabem? :)))

The Christmas story

www.stpauls.org.nz

Correspondência Íntima - IX

O passado é nosso. E voltamos lá sempre. Quer queiramos, quer não. Há ali um magnetismo. Sim, faz-te doer. Faz-nos doer a todos. Mas voltar a ele nem sempre é mau. Tenta pensar no lado positivo de cada um dos passados que te atormenta.

A minha relação com o passado está-me a escapar por entre dos dedos. Sinto que, se por um lado nada me liga ao passado ou o passado é-me tão estranho que nem o reconheço (há alturas em que mal o lembro), por outro ele pesa-me horrores e sinto que, mais do que nunca, estou presa neste momento assustador. É mais uma coisa que não sei. Mais uma dúvida, mais um assunto à reflexão.


20/12/2012

O meu cadinho de gente

faz 6 anos hoje!
E já anda na escola, e já revira os olhos, e já quase percebe a ironia, e já não gosta que a tia o aperte e o beijoque todo.

Quanto a isso, não tem sorte nenhuma!! :D



19/12/2012

Correspondência Íntima - VIII

Eu já nem sei o que sou. Sei que estou cansada, que há dias em que me apetecia fechar os olhos e não os voltar a abrir. Pelo menos uma vez na vida as coisas podiam correr bem, sei lá eu. Às tantas estou a ser egoísta, porque haverá gente em situação bem pior, porque as coisas estão como estão e só um grande milagre as fará mudar, porque eu deveria saber melhor. Não sei... Acho que o ano de 2012 vai ficar marcado pelo não sei, desde janeiro que é tudo o que digo. Eu realmente não sei nada.

18/12/2012

Aspirações sem razão

Eu queria apenas partilhar contigo a domesticidade sossegada de nós dois. Queria - vê lá tu - sentar-me ao teu lado, numa varanda sobre o mar, e escrever um romance que tu pudesses admirar. [...] Porque a História que nos aproximou, espremidinha até ao tutano, não dá senão para romances maus. Telenovelas de chular neurónios apagados.
Inês Pedrosa, Fazes-me Falta 


Blindness - The Gift

17/12/2012

A minha casa

Era altura de este texto ver a luz do dia. Assim se tece a teia com os fios da imortalidade.


Long Time - The Gift


'Cause they say home is where your heart is set in stone  
where you go when you’re alone 
Gabrielle Aplin, Home


Não sei o que vim fazer a casa. Não sei o que vim fazer aqui. Vim levada por um qualquer impulso de encontrar o que me falta e o que me falta és tu. Não posso não rir com este pensamento que é em si mesmo tão certo como esta necessidade de voltar geograficamente a este lugar e rio porque tentar encontrar-te na minha casa é como querer neve em pleno agosto.
Ainda assim, percorri os quilómetros que se intrometeram entre o lugar para onde fugi – de ti, do passado, de mim –, e o espaço físico que delimita a minha casa, a casa que moldei com as minhas mãos e onde desejei albergar-te. Não sei dizer por que caminho vim, por quem passei, quantas rotundas contornei. Não sei dizer o tempo que demorei, quantos carros me passaram, nem quantos passei. O negro da noite é tudo o que sei dizer. E a tua imagem em cada árvore, em cada estrela, em cada pedaço de alcatrão, em cada sinal, em todo o lado.
Subo a rua, remexo a mala, tateio o molho à procura da chave certa, introduzo-a na ranhura e sinto fugir-me das mãos a porta. Paro à entrada. Há um instante insano que me prende, me tolhe o passo necessário que me falta dar, me aguça os sentidos à espera que tu te movimentes. Ao instante de esperança louca, segue-se todas as vezes a desilusão. A minha casa nunca te viu, nunca te sentiu, nunca te cheirou. A minha casa não sabe a que soa o teu riso, nem te reconhece pela música, nem pela cadência dos passos.
Fecho a porta, poiso tudo o que trago no chão da cozinha, subo as escadas. E tu fechas a porta comigo, poisas o que trazes no chão da cozinha, sobes as escadas atrás de mim, segues para a varanda com vista para os telhados das outras casas, fumas um cigarro, paras o tempo. E eu paro contigo. Um instante que se suspende e onde se repetem todos os momentos do passado, uma pausa em movimento perpétuo, circulando por todas as memórias boas, polindo os momentos maus ou incómodos até ao sublime da saudade, escrevendo em vidros embaciados as intenções de futuro que hão de ter sempre a perfeição da irrealidade.
A minha casa é uma concha vazia, um somatório de paredes e chão e janelas e portas, divisões desprovidas de alma, de calor, de corpos respirando vida, transpirando vida, criando vida. A mesma casa que gerou muitas conversas, alguns risos, afirmações irrefutáveis, devaneios e muitos planos, está agora ornamentada com silêncio, mágoas e fragmentos do que te pertenceu e eu trouxe nos olhos e espalhei pelos espaços.
Continuo sem saber o que vim fazer aqui. A tua presença manifesta-se pela tua não presença, tu não estás aqui, vieste comigo. Sou eu que te levo para todo o lado, mesmo quando quero fugir de ti. Sou eu que guardo nas mãos os pedaços do que não foi e eu quis tanto que tivesse sido. Sou eu que te prendo, que te enlaço, que te teço na pele, que te fundo nas veias, que te respiro e imprimo em mim. Sou eu que tenho como futuro um pretérito mais que perfeito, porque o futuro não existe e foi vivido todo no presente que passou.
E o negro da noite cá dentro. E a tua imagem em cada parede, em cada luz, em cada pedaço de chão, em cada objeto, em todo o lado. E eu parada no cimo das escadas. E eu sem conseguir mover-me em qualquer direção que seja, para me perder de ti.
Fecho os olhos e ouço-te límpido e claro como se estivesses comigo. Chove-me nos olhos, chove-me por dentro; trovejam-me soluços que me estremecem, encharcam-me as lágrimas que a tua ausência chora; escurece-me os ossos a tristeza da tua perda. Estou tão cansada. Foge-me o entendimento necessário para alcançar o que vim fazer aqui, para discernir que impulso perverso me trouxe a este lugar, para determinar as razões que te tornam tão presente quando eu tenho feito tudo para seres passado.
Num mesmo momento, censuro-me, enfureço-me, choro de raiva, de saudade. Revolto-me contra a minha incapacidade de seguir um caminho que não este, de escolher partir sem remorsos, nem incertezas. Porque o coração pesa-me no peito e a minha mente é a minha pior inimiga. As coisas ganharam um tom desmaiado, afiguram-se-me fiapos de qualquer coisa antes grandiosa, têm pouco valor, menos sentido. Vejo-as desgastarem-se sem pena, as ruínas do meu mundo que compõem o caos em que me tornei. Limpo as lágrimas dos olhos, mas elas insistem em correr. Não deveria haver razão para tanto sofrimento, não deveria ser possível que alguém infligisse a outro tanto tormento. Eu deveria ter sido mais rápida a antecipar o dano que me causarias, negligenciei a minha intuição, ceguei-me propositadamente para os indícios que se espalharam à nossa volta. Agora o tempo segue o seu curso de se arrastar pelas horas e de me arrastar com ele. Afogo soluços teimosos e cedo perante o inevitável que é a falta que me fazes.
O tempo continua parado. A minha casa está vazia. Eu estou vazia.
Tu não estás aqui.

16/12/2012

Would you smile again if I stop the time

No rádio do meu acaso, umas intermitências de comunicações entre continentes separados pelo Letes ecoam a saudade miudinha que ficou para sempre na ponta dos dedos. A contar os dias ficaram moiras avessas à sua tarefa de cortar os fios. 


Meaning of life - The Gift

15/12/2012

Inclassificáveis # 45

Continuo sem perceber a beleza de um risco ao meio. Lá chegarei.



14/12/2012

Hoje não me recomendo

Não queiras saber de mim - Rui Veloso ft. Mariza


Entre os olhos de coelho com moléstia e o nariz de Rudolph, the reindeer, estou uma coisa linda de se ver. Definitivamente, hoje não me recomendo.

13/12/2012

Give it to me straight

Monster - Arielle


Give it to me straight
Will you love me
Will you leave me alone
Give it to me straight
Are we making a hotel
Or a home
Here's a fact you don't know me
Here's the truth you never will
You just want the meal
Honey you don't wanna foot the bill
But that's okay cuz

My heart's a muscle
And I, I give it exercise
I make it stronger so that I can take it
When it breaks and
The world is always spinning
The river always runs
You think I'm crazy
But I think I'm entitled to some fun

But why would you be kind
If it seems proper to be a monster
And why would you be polite
You're an imposter

Give, give, give it to me straight
Will you love me
Will you leave me alone
Give it to me straight
Am I fire when ice is all you've ever known
Here's a fact you can't break me
Here's the truth you're gonna try, try


Well you can charm me and disarm me
I won't even ask you why

This is not a relationship
Its a struggle for control
Why be kind when you left behind
With this empty hole
With this hole, hole

How would you like your very own monster


Aqui há uns dias, a minha mana gémea emprestada (maravilhas da amizade), A Rapariga Assim-Assim, deixou no meu fb esta música. O que só vem provar o quanto ela me conhece. Na verdade, ligo pouco à letra, só me consigo concentrar no piano e na modulação da voz da moça, que é uma das formas como gosto de ouvir música.
Aqui fica, Arielle.

12/12/2012

Taxar os Ricos (um conto de fadas animado)



Qualquer semelhança com a realidade portuguesa...

10/12/2012

Da nuvem ácida


Senta-te aqui. Aqui, nesta nuvem de excessos enxofrados de onde cairão chuvas ácidas.
Olha as pessoas que correm e se apressam, levam nas mãos sacos cheios da vida que lhes pesa e tarefas por cumprir. Correm pelas ruas, com pés de rodas com jantes de ligas leves ou rolamentos ruidosos - tanto faz -, param e avançam, segundo ordens estabelecidas superiormente pelo controlador de tráfego. Só conhecem duas cores: vermelho e verde, o amarelo é um esbatimento nas luzes da cidade que não tem relevância histórica.
Olha as pessoas que saem e entram em espaços insuspeitos, como quem foge do medo, à procura de paz. Chiam, apitam, rangem os dentes se alguém as ultrapassa no traço contínuo. É expressamente proibido ultrapassar pela direita. Para os infratores, há um baralho de contra-ordenações. Joguemos.
Olha as pessoas pálidas, acinzentando-se no monóxido de carbono que libertam das solas dos sapatos. É necessário que se implementem medidas amigas do ambiente e se substituam as solas de borracha por tamancos de madeira. Menos uma carta. Senhor guarda, tenha a gentileza. 
Olha as pessoas suspensas nas árvores, como quem navega os sonhos e colhe estrelas maduras. Subiram lá cima porque estão descalças, os pés duros pelas cascas que os rasparam. Aplaude-se a iniciativa amiga do ar que se respira. Desconfiam os que protegem as árvores. Será que lhes dói?
Olha as pessoas afadigadas, como formigas sem descanso, ocupadas de mãos, cansadas de braços, agitadas no trabalho.
O centro da cidade foi entregue às crianças, só elas se podem esconder atrás das estátuas e deitar nos bancos dos jardins. Proibida a entrada a humanos com mais de dez anos.
- Quem levará as crianças aos jardins?
- Boa pergunta. Deixemos as fadas fazer o seu trabalho.

08/12/2012

Eu provavelmente morro com o fim da luta

O fim da luta - Balla


Gosto de ver-te passar
Anseio por ver-te passar
Mas eu não vou,
Não vou.

Adoro ver-te gozar
Quero ver-te gozar
Mas eu não estou,
Não estou.

Eu provavelmente morro com o fim da luta
Mas se te faz feliz eu paro
E recomeço com um ódio de amor
Que não nos faça tanto mal, 
Que não nos torne mais amargos
E nos deixe sem dúvidas, 
Eu provavelmente morro com o fim da luta
Mas se te faz feliz.

Hoje não vamos falar
Recuso ouvir-me falar
Mas eu não sou,
Não sou,
Forte pra te contestar
E tu queres ver-me gozar,
Mas eu não estou,
Não estou.

Se não conhecem este projeto fantástico, cliquem nos hiperligações aqui em baixo e descubram, com o bónus de poderem descarregar álbuns, de graça.


Gosto dos acasos que me levam a descobrir coisas boas, quer sejam pessoas, lugares ou música. No ano passado, não sabia o que oferecer ao meu irmão mais velho, pelo Natal, por isso, fui à FNAC e pus-me a olhar para a música portuguesa, à procura de artistas com nomes estranhos e capas que despertassem a minha atenção. Foi assim que descobri Balla. E o mano adorou. :)

07/12/2012

You hit me like a bomb


Diz quem me melhor me conhece que eu gosto mesmo é de música de fazer chorar as pedras da calçada, daquela que se ouve quando se esfregam feridas com sal, quer esteja a chorar copiosamente ou em euforia desmedida. Palpita-me até que vocês, que não me conhecem de lado nenhum, pensam o mesmo. Dou a mão à palmatória e admito o meu gosto particular por música triste.

Mas, como sou simples, coisa que vocês também já perceberam, tem dias em que o que eu gosto mesmo de ouvir é barulho, especialmente elementos do sexo masculino bem apessoados a gritar que nem mulheres histéricas em frente a montras com sapatos em saldo (Jon Bon Jovi, ninguém te bate, homem, por isso o meu coração palpita, mesmo ao fim de tantos anos). 

Hoje, apesar da chuva e do céu farrusco, estou numa de barulho, de guitarradas e instrumentos afins, que eu cá não sei que nomes lhes chamar. Para ajudar, os Third Day têm um álbum novo, que eu ouvi graças ao Youtube (you rock, man!), e esta música mai linda que vai tocar no PC o dia todo.

Agora, esta que vos escreve com fina elegância e superior arte em esgrimir palavras vai pegar no aspirador, nos panos, no balde e afins, e vai atacar a desarrumação like a bomb! Mas das que implodem e sugam o cotão e a porcalhice, já há pó suficiente em todo o lado, para me dar ao luxo de explodir.


Outra coisa... Parece que hoje é sexta. Oh! joy. (-.-)

03/12/2012

Boa segundaaaaaaaaaaaaa, fofinhoooooosssssss!!!!!!!! *

Gone - Paatos

I’ll be gone 
Before the flood
The dam will break
And release the blood

Been living on borrowed deeds 
And on stolen beliefs
Been lying to quench my thirst
The wants of a thief

My judgment is sure to come
I know what I am
But justice can never be
Cause I’m sure to be gone

And after there’s disbelief
Just an empty black hole
Indifference is all that’s left

After all that I stole
Soon I’ll be goneI leave my legacy


* Título como que gritado e com termo carinhoso, para ajudar a criar afinidade com os leitores e passar-lhes a ideia de que estou mesmo contente e coiso e tal. No fundo, é só uma forma deslavada de lhes dar música. Citando o POC, esta foi para perder mais uns quantos leitores.

02/12/2012

Pulguita

Pulguita - Kolme

30/11/2012

Os dias de chuva entristecem-me

Os dias de chuva entristecem-me. Não porque haja uma tradição literária e sentimental de desgraça e desapego a eles associados, mas porque os momentos tristes da minha vida aconteceram em dias de chuva, por extensão, em dias de inverno. Factos reais concorreram com a ficção, como se uma e outra fossem indissociáveis e tão verdade que por nada se negariam. É nesta certeza que volto a Wilde e à sua afirmação de que, qualquer coisa como isto, a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.

Por isso, os dias de chuva entristecem-me. Uma lembrança chama outra que chama outra e por aí fora, espirais de memórias de acontecimentos passados trazidos à luz por um mesmo sentir. Não conservo ilusões. Não há dores que se sintam em compartimentos estanques: agora esta, agora aquela, agora a outra. Não, elas são uma só a levarem-me a um patamar superior de sofrimento. Sentir uma perda é sentir todas as perdas. Chorar uma morte é chorar todas as mortes. Quebrar ao peso da saudade é quebrar ao peso da saudade inteira, feita de saudades mínimas. 

Este dia de chuva está a entristecer-me. Mesmo que esteja abrigada da chuva, mesmo que cá dentro esteja quente. Há uma chuva miúda de desapego que me encharca a roupa. Há uma corrente de ar frio que me arrefece os pés. Todos os meus fantasmas, vivos e mortos, se sentaram comigo, respiram por cima do meu ombro, leem com atenção tudo o que escrevo. Nem eles querem estar aqui, mas voltam sempre, pelo prazer de me mortificarem. 

A chuva cai lá fora. Creio que os céus estão solidários comigo.

29/11/2012

Eu que me apaixono por tudo e por nada


Eu, não, a personagem deste livro, espécie de marialva desgraçadinho a quem tudo acontece: amores impossíveis, paixões assolapadas e contrariedades só ao nível dos trabalhos de Hércules.

Um homem, assombrado pelos fantasmas do passado, embarca numa viagem…

OK, se isto fosse um livro como deve ser, era mais ou menos assim que devia começar o resumo da contracapa.

Como não é o caso, digamos apenas que “Eu, que me apaixono por tudo e por nada” conta a história de um homem condenado a apaixonar-se uma e outra vez. E mais outra.

Uma maldição que só será quebrada no dia em que encontrar o verdadeiro amor da sua vida. Enquanto esse dia não chega, resta-nos rir com as suas relações desastrosas que, invariavelmente, acabam no hospital, na esquadra ou no meio de um campo de milho a fugir de dançarinos do rancho folclórico sedentos de vingança.

Um livro onde amor e humor se envolvem num inesperado e arrebatador romance que ninguém sabe ao certo se acabará numa separação litigiosa, ou num improvável final feliz.

Como vem aí o Natal e os tempos estão tristonhos, aproveitem para soltar umas gargalhadas (alguns de nervoso por se reverem nas histórias, sou capaz de apostar) e leiam Eu, que me apaixono por tudo e por nada, o autor merece. :) 

Cliquem aqui ou ali no ícone em baixo e façam a vossa encomenda. E sigam no sítio do costume, para se manterem a par das novidades. 

Eu já li e recomendo. *





* PJD, já me podes mandar o cheque. Preferes o NIB?

27/11/2012

O meu aquecedor

devia ter o dom da ubiquidade.
Nunca o tenho onde me é preciso.

Se dúvidas havia sobre a insanidade mental da minha família

Porque Deus joga Sims

Personagens: Rapariga, Irmão bem-apessoado com um quarto de século, Irmão bem-apessoado ligeiramente mais novo.
Local: Quarto da Rapariga.
Tempo: 22h30.

Ato único

 [Rapariga aconchegada nos lençóis e nas mantas, 
preparando-se psicologicamente para uma leitura sobre a morte, 
patrocinada por Inês Pedrosa - Fazes-me falta]


CENA I
(Rapariga, Irmão bem-apessoado com um quarto de século)

[ Irmão... bate à porta e irrompe pelo quarto, 
interrompendo a leitura ]


IRMÃO...

Se Deus joga Sims com a nossa vida, o que acontece se eu tiver um bug?


RAPARIGA

[ levanta os olhos do livro e catrapisca 
de incredulidade ]



CENA II
(Rapariga, Irmão..., Irmão bem-apessoado ligeiramente mais novo)


IRMÃO...
[ repete a pergunta. Encostado ao 
guarda-fatos, simula que caminha ]

Olha, tenho um bug!

IRMÃO... 2
[ Levantando os braços, com os cotovelos 
junto ao corpo, agitando as mãos. 
Imita uma voz histérica ]

Também eu!

RAPARIGA

[ continua de boca aberta, sem saber se ri, 
se chora.  Irmãos saem do quarto, imitando 
avatares presos aos elementos do jogo,
com vozes histéricas ]



Deus Nosso Senhor tem de ter mesmo muita paciência para nos aturar.

26/11/2012

Há dias em que acordo

Happy Day by Alberto Cerriteño


a sentir-me espantosamente feliz.
Hoje é um desses dias. 

23/11/2012

Como eu vejo os problemas de matemática


Ou o estado em que está a minha cabeça.

22/11/2012

Eu que nunca fui mãe


Lembro-me com bastante nitidez da primeira coisa que quis ser quando fosse grande. Tinha três anos quando soube que a minha profissão seria ser mãe. Foi no dia em que disse à minha mãe que não queria o bebé careca, mas queria um bebé de cane, pedido esse devidamente acompanhado de uma birra que terminou comigo a confortar a tristeza, agarrada a um boneco de plástico, com corpo de pano e esponja. Tinha três anos. Depois, quis ser professora e segui todos os níveis: primeiro era o Pré-Primário, depois o 1º ciclo e por aí fora; circulando pelo inglês, a história e o português. Pelo meio uma vontade de ser arqueóloga que nunca foi para a frente por causa dos filmes do Indiana Jones - se tivesse de ficar pendurada nalguma ravina, morria com toda a certeza. Hoje, sou professora de português, do 3º ciclo e do secundário (até provas em contrário), mas não sou mãe. Facto que os amigos e conhecidos não me deixam esquecer.

Não sou mãe, mas tinha sete anos quando nasceu o meu primeiro irmão mais novo, uma espécie de prenda de anos que veio com dois meses certinhos de atraso. Lembro-me da excitação da notícia, lembro-me das horas passadas a mexer na barriga da minha mãe, lembro-me das conversas que tive com Deus porque eu queria uma irmã e Ele tinha de dar um jeitinho para que isso acontecesse. Lembro-me de ter ido com a minha mãe à única ecografia que ela fez e de ter observado com grande indiferença que o coração do bebé parecia uma manada de cavalos a correr. Lembro-me do ar preocupado da minha mãe quando o médico lhe disse "o rapaz tem uns grandes tomates!" e do jeitinho com que o meu pai me perguntou se um irmão também não era bom. E lembro da resposta que dei: se for um menino, eu mato-o. Não matei. Adotei-o para mim e tornei-me na segunda mãe dele. Mas eu não sou mãe.

Com dez anos, nasceu o meu último irmão, também ele uma espécie de prenda, agora para ambos, seis dias mais tarde do que a data de nascimento do piolho mais velho. Nessa altura já me era indiferente, menino ou menina tanto me fazia. Lembro-me das fraldas e dos beijinhos que lhe dava na barriga gorducha; das noites que passei a embalá-lo, antes de o ir levar à minha mãe para ele mamar. Lembro-me das papas e dos cuidados, de correr atrás dos dois que fugiam um para cada lado. Lembro das muitas fotos que lhes tirei, das vezes que perdi a calma, dos meus posters rasgados só porque lhes apeteceu, de acordar de madrugada com a televisão a berrar desenhos animados, de gritar possessa da vida quando vi a minha coleção de bonecos da Disney a derreter na lareira. Lembro-me que levava os trabalhos da escola por fazer, por não ter tido tempo, e de dizer aos professores que não os tinha sabido fazer. Lembro-me também das noites em que lhes dava banho e os levava comigo para a cama, para ver se adormeciam mais rápido e acordar mergulhada num mar quente e com um odor estranho. Lembro-me que a minha infância passou muito rápido e a adolescência foi um ar. Mas eu nunca fui mãe.

Tenho nítido na memória o primeiro dia que viajei de comboio e os levei, eu teria uns doze anos, um dois e o outro cinco. Lembro do medo terrível que tive que eles caíssem para a linha e do alívio que senti quando cheguei ao trabalho da minha mãe. Lembro-me das manhãs na praia e do susto permanente que tinha de os perder, dos copos com leite de chocolate, das bolachas e das bananas passadas em areia - foi nessa altura que aprendi que se pode ir à praia e não ir à água, sem que seja uma tragédia assim tão grande. 

Não consigo esquecer o dia em que lhes disse que o avô tinha morrido e que nesse ano íamos passar a passagem de ano em casa. Duas crianças de cinco e oito anos a estranharem a tristeza à volta delas, sem entenderem a dimensão da perda que todos sentíamos. Lembro-me de os deixar no aeroporto e os ir buscar eufóricos com o que tinham visto, naquelas férias da Páscoa, com a mãe e os tios, no Luxemburgo.

Depois houve os primeiros dias de escola e os trabalhos de casa, os malabarismos para explicar que era um dois três quatro cinco e não um dois três cinco. Houve as quedas, as cabeças partidas, houve férias intermináveis, houve sustos e coisas boas. As perguntas curiosas, os comentários inocentes, os passeios para Lisboa, o ensinar do bom hábito de ter uma mala com tudo e uma carteira para os documentos e o dinheiro. Houve o cuidar-lhes da roupa - a minha mãe perguntava-me de quem era o quê, porque ela se perdia nos tamanhos -, o preparar dos sacos dos equipamentos, o explicar que o desodorizante existia para evitar que eles cheirassem mal e que o usassem a bem da saúde de todos, houve o ensinar como se usava uma lâmina e como é que se fazia o bigode. Houve vacinas e idas ao médico, copos de leite antes de dormir e incontáveis pares de sapatilhas espalhados por todo o lado. Houve os meus meninos a tornarem-se homens, a barba a crescer-lhes, as namoradas a irem e virem, os planos deles a tomarem forma, a emoção de os ver trajados. Houve isto tudo. Eu que nunca fui mãe.

Ainda assim, o meu sonho continua por cumprir-se, 30 anos mais tarde. Eu que sempre pensei que por esta altura teria já uma equipa de futsal em miniatura, que era defensora acérrima de famílias grandes, porque há coisa mais importantes do que uma casa perfeitamente arrumada e roupa nova em todas as estações. Talvez a única coisa que eu soube sempre que queria ser não vá acontecer. Uma parte de mim entristece-se com esta certeza, a outra conforma-se. Acredito que o processo mais difícil é aceitar que houve coisas que quis muito e já não vou poder ter, que a vida me trocou as voltas, que afinal não cheguei lá. Depois de aceitar isto, depois de arrumar o que já não tem sentido, é menos difícil, mais tolerável.

Olho para trás e vejo que não foi tão mau assim, afinal tive-os a eles o que é muito. Há vinte e cinco anos que começou esta aventura. Apesar disso, os amigos que foram pais há um ano, ou dois ou três, continuam a dizer-me que eu não sei o que é ser mãe, que eu nunca experimentei noites sem dormir por causa de um choro que não acaba de forma nenhuma, que eu não sei o que é ter a roupa suja de papa, que eu não sei o que é andar horas com uma criança pequena (e às vezes já não tão pequena assim) ao colo, porque eu nunca fui mãe. Digo que sim, que têm razão, que não sei, que talvez nunca vá saber e sorrio para os deixar tranquilos e de bem com as suas próprias opiniões. "Tu sabes lá o que custa andar sem dormir há meses?". Pois, não sei, é que eu nunca fui mãe.

20/11/2012

Correspondência Íntima - VII

Porque aquilo que apontas como motivo de culpa − a tua extraordinária capacidade de não pressionares as pessoas, nem quereres saber mais do que achas que te é devido − é precisamente a origem do teu encanto.


A única coisa que sei é que parece que não chega e depois é horrível ser assim, porque este dar ar e liberdade é pago por mim em horríveis angústias que não manifesto. Sou eu sozinha a tentar processar as inseguranças, os medos, a saudade, o sentimento de abandono - muitas vezes -, tentando seguir a lógica do respeitar para ser respeitado. Isto, meu caro, é imensamente desgastante, porque não há transferência, fica tudo aqui e leva a outra pessoa a convencer-se que as suas ausências não causam transtornos, porque eu não cobro, pelo menos não com agressividade desmesurada. Feitas as contas, são noites e noites mal dormidas, para além de inúmeros dias de cão.

Anonymous Speech - Portuguese Protesters

Considerem-se outras perspetivas.

17/11/2012

Foi como amor aquilo que fizemos

Quando se junta a música d'A Naifa e a poesia de Margarida Vale de Gato, o que temos é isto. E é bom.

Émulos - A Naifa



ÉMULOS
Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos
Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.
Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.
E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.
Margarida Vale de Gato

16/11/2012

A Maria

A Maria é a pessoa estranha que mora no fundo da rua, na casa azul. Eu nunca lá vi ninguém a visitá-la, mas só tenho sete anos e ainda não vivi nada e ainda tenho uma memória curtinha, como diz a minha avó. Eu acho que não tenho nada uma memória curtinha, porque me lembro das vezes todas que a avó me prometeu que fazia pudim de chocolate e depois não fez, por isso, posso confiar na minha memória quando digo que nunca ninguém visita a Maria. Não sei se é por ser negra, pode ser que as pessoas tenham medo da cor da pele dela. Perguntei isto à minha mãe no outro dia e ela olhou para mim com um daqueles olhares torcidos que me arrepiam os cabelos e chamou-me “Ana Catarina! Isso não se diz, estás a ser preconceituosa, as pessoas não se definem pela cor da pele com que nasceram, definem-se pelo carácter que se forma dentro delas!”. Eu acho que foi isto que a minha mãe disse, ela às vezes diz umas palavras complicadas e eu tive de ir ao dicionário ver como se escrevia pre-con-cei-tu-o-sa e o significado, mas não era nada disso que eu queria dizer e a minha mãe é uma exagerada. Não é porque a Maria é escura na pele que as pessoas devem ter medo dela, é porque ela é escura no coração. 

14/11/2012

Porque a minha desinteressante vida não interessa a ninguém

Sei que a minha vida não interessa a ninguém, embora eu insista em partilhá-la nos seus aspetos mais sofridos e dramáticos - assim tem sido, mea culpa -, mas como não tenho nada de muito relevante para escrever, por que não divagar sobre a vidinha?

Têm sido tempos de muita reflexão, muito arrumar, muito abrir mão de coisas e procurar outras. Decidi deixar de vez o ensino (não consigo viver mais ano nenhum nesta corda bamba) e, tudo correndo bem, vou abraçar a minha outra paixão (toda a gente a torcer para que corra mesmo). Decidi pôr a cabeça em pausa e dedicar-me só a sentir coisas boas (ah, Fernandito, eu sei que não é assim, mas sou eu que mando). Decidi remodelar de vez a cozinha e partir os azulejos: se dantes tinha uma cozinha funcional, ainda que velha e feia, agora tenho um monte de entulho, igualmente feio, apenas não funcional. Pode ser que no fim consiga uma igual a esta, mais coisa menos coisa, deve ser mesmo menos coisa. Diferente ficará. 


Agora, vou ler ali umas coisas - que bem me andam a fazer as minha leituras -  e continuar a fazer festinhas ao Farfas que está refastelado no meu colo fofo e nutrido (o colo e o gato, ambos dois. Alguém quer um gatinho? Ainda falta dar três, duas gatas e um gato. Aproveitem, levam três pelo preço de um).

Já agora, quem mandou imagens para eu escrever coisas e publicar no outro blogue não desanime, eu não me esqueci, só não sei o que fiz à inspiração. A ver a acho.

13/11/2012

Música de cama

Casa
Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.
Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura. 
Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

Presídio
Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, troco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?
E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

Sotto voce
É possível que eu esqueça a liquidez da Lua
o sono dessa rua às três da madrugada
a longa caminhada orquestrada pela chuva
a sombra de uma luva em cima de uma vaga
É possível que eu esqueça o dia em que nasceste
Em que depois da luva apareceram as mãos
É possível que eu esqueça     Ou me seja indiferente
É possível que sim     É preciso que não
em Música de cama, David Mourão-Ferreira, Editorial Presença


É isto que ando a ler. Aconselho.

12/11/2012

Amor digital


Eu e tu, um amor descomplicado,
uma cabana com televisão por cabo 
e Internet sem fios.

09/11/2012

Faites attention, s'il vous plait



Pronto, ide-vos lá preparar para o fim de semana e tal.

08/11/2012

Apesar de tudo

há um dia em que temos de fazer as pazes com o passado e deixá-lo ir. Não se pode viver a olhar para trás.

07/11/2012

Ser ou não ser

não é a questão. Ser ou parecer. Isso, sim.

05/11/2012

E creio servirem estas baboseiras para ocultar um pequeno delírio do meu coração.*


trouxeste contigo um jeitinho brasileiro
entranhado na melancolia do norte,
no pé um samba bacana e disseste:
a tua música é muito triste,
a tua vida muito arrumada!
ao som de um forró,
reviraste-me as gavetas
e a cabeça, deixaste o meu
coração de pantanas.
mas estava frio, lembras-te? e o calor
arrefeceu na mala de viagem
que deixaste aberta no chão, remexida.
os músicos arrumaram os instrumentos e
a alegria num instante parou.
a chuva é má conselheira e a névoa
perturba a visão:
não vias para arrumar os livros espalhados por todo
o lado, eram tantos os copos para lavar e a fadiga muito grande.

está frio outra vez,
esteve frio o tempo todo,
gastou-se o calor na tua mala de viagem,
calou-se o samba e a minha música
continua triste, a vida menos
arrumada, pelo tanto que me sobra nas mãos.
faltas-me tu e o teu jeito e as tuas letras e as tuas perguntas e
tudo. e mais ainda!
está tanto frio outra vez,
o frio que já não sentes
por estares perto do sol, onde os dias são grandes
e a música não para, balançando sem cansaço,
no lado mais de amor, mais de ternura,
do meu coração resignado.


* [ o texto original a que este título diz respeito pode ser lido aqui. ]

31/10/2012

Correspondência Íntima - VI


O tédio instalou-se na minha vida. Não tenho nada de relevante para partilhar em lado nenhum. São demasiadas as redes em que me perco, tanto por onde me expressar e tão pouco para dizer. É um bocadinho diferente do que vejo a maioria fazer. Parece que toda a gente anda embrenhada em projetos aliciantes, como se as suas vidas não pudessem ser outra coisa que não alegria e emoção. É o curso natural: quando a nossa vida é minimamente agitada, gostamos de nos gabar disso e espetar no nariz de toda a gente que fazemos e acontecemos. Tendemos a estar calados quando não há por onde gabarolar. Assim estou eu.

29/10/2012

I love mondays. So what?

Sim, sim, eu sei que o normal é começar a semana (na verdade, a semana começou ontem) com mensagens de ódio às Segundas, escrever posts redundantes com dia marcado a falar de todos os pontos negativos do dia em causa, lamentar o trabalho que começa (atitude bastante ofensiva, tendo em conta o número de desempregados neste país), odiar as aulas que começam (estudar é um privilégio cada vez maior) e todo o dramalhão que leio há anos. Bahh!! Há coisas piores, como nem chegar a acordar para viver este dia.

25/10/2012

Transforma-se este blogue num antro de badalhoquice


Continuando na senda das refeições saudáveis, um anúncio ao fiambre que nos faz positivamente salivar. Pelos vistos foi banido, consideraram-no publicidade enganosa (terá sido problema da perna extra?), mas graças à Internet podemos vê-lo sempre que nos der a vontade.



24/10/2012

Não se esqueçam de tomar o pequeno-almoço

não sei onde a achei :/



Já que eu ando de dieta.

23/10/2012

Realmente, nasci no século errado

Rembrandt Harmenszoon van Rijn - Bathsheba at Her Bath, 1654

Tivesse eu nascido pelos séculos XV-XVII e estaria escarrapachada na parede de um museu famoso.


22/10/2012

Nada mais importa


Samson came to my bed

Told me that my hair was red
Told me I was beautiful and came into my bed

And kissed me 'til the mornin' light, the mornin' light

And he kissed me 'til the mornin' light

21/10/2012

Nenhuma morte apagará os beijos


Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida. 

Aí estarão de novo as nossas mãos. 
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos. 
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres. 
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e, 
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida e atormentada 
desvendará em cada minuto o seu segredo 
para que este amor se prolongue e noutras bocas 
ardam violentos de paixão os nossos beijos 
e os corpos se abracem mais e se confundam 
mutuamente violando-se, violentando a noite 
para que outro dia, afinal, seja possível.  

Joaquim Pessoa, in Os Olhos de Isa




[este blogue ainda está de castigo. vim só partilhar um poema que podia muito bem ser meu]


14/10/2012

o amor é curto e deixa mossa, mas quero voar, por favor!



[este blogue foi considerado supérfluo até provas em contrário. até já]

11/10/2012

Correspondência Íntima - V

O meu afastamento das pessoas tem a ver com a necessidade me proteger. De momento, não tenho capacidade emocional, nem disposição, para lidar com as minhas coisas, muito menos com as dos outros. Assim, estou presente em doses moderadas e deixo que os amigos estejam nessas mesmas doses. Não tenho nada de novo para dizer, não sou capaz de voltar aos assuntos antigos. O silêncio, ou a presença silenciosa, é o melhor que posso dar no momento.

10/10/2012

Está oficialmente aberta a época de acasalamento

das imagens com as palavras.

Lembram-se do pedido que vos fiz? Pois bem, só cinco destemidos, dos cento e quarenta e não sei quantos seguidores, atiraram imagens ao ar a ver se eu as apanhava (isto diz muito da importância deste espaço na vossa vida, o que acaba por ser bom, que aqui não se aprende nada).

O meu novo blogue lá começou com dois textos já publicados, mas com as devidas fotografias a ilustrá-los, não que os tivessem inspirado per se, tão só dão conta dos espaços físicos mencionados.

Ontem, para me inspirar fui dar uma vista de olhos às fotografias do Nuno Ramos (de quem já falei aqui, aqui e aqui) e encontrei umas flores amarelas que deram o resultado que se pode ler.

No entanto, hoje é dia de começar a reagir realmente às sugestões apresentadas. Começo com a reprodução de um quadro de Millais, Ophelia, gentilmente posto em cima da mesa pelo Luis Rodrigues, aquele que anda sempre com tinta no bolso, e que causou um impacto em mim que não contava. Posso dizer-vos que andei o dia todo à volta quer da imagem quer do texto, o processo foi sofrido. Já lá podem ir espreitar o resultado, se assim o entenderem.






(Já agora, aproveitando que este post é pedinchão e queixinhas, alguém pode fazer a caridade de me ensinar como é que se acrescentam páginas ao blogue, para além da Página Inicial? Agradecida)

09/10/2012

O vazio que me deixaste

é uma mágoa sem fim.


[hoje está pesado e chove por todo o lado]

08/10/2012

Tenho um novo blogue e preciso de vocês

Ora bem, meus caros, preciso da vossa contribuição intelectual.
Explicando: criei um blogue só para os meus devaneios poéticos (cof cof cof), mas não queria que fosse uma coisa tão pessoal que ninguém a entendesse. Por isso, gostaria que me deixassem ideias, ou seja, sugestões de pinturas, fotografias ou imagens, vossas ou de outros, para eu poder escrever sobre elas.
Quando postasse o texto, postaria também a imagem e o nome do blogger que a sugeriu.
O pontapé de saída (ando a ler Simão, escuta a mais) está dado, com um poema que escrevi há uns meses, sobre um banco da praia da Figueira. Não é propriamente aquele, mas vocês também não podem ficar a saber tudo.

Agora, vá, digam-me coisas. :)

07/10/2012

Criativa 2012



A Criativa chegou ao fim, foram três dias (para mim, apenas um e meio) de muita atividade cultural.
Já sentia falta de toda esta agitação, viver longe da capital pode ser mesmo uma grande chatice, salvam-se estas iniciativas. Parabéns ao vereador da cultura da Figueira e a toda a equipa da organização, à Comissão de Honra e aos criativos.

De tudo o que aconteceu, posso realçar a conversa com Nuno Camarneiro, é sempre um gosto ouvi-lo; as exposições no Museu e no CAE - aconselho a exposição Sérgio Godinho e as 40 ilustrações -, o vídeo alheava_filme, de Manuel Santos Mais, uma visão muito pessoal e humana da guerra em Moçambique; e as palestras "A indústria artística, o trabalho inventivo e o valor das artes". No fim, quatro minutos de tempo para o filme de animação stop motion, Tito em Sarilho, de Ana Batata e Bruno Lucas.

Ah, definitivamente vou-me inteirar do trabalho do Afonso Cruz.

Muito ficou por ver, ouvir, apreciar. Não deu para tudo. Espero em ânsias pelo ano que vem.

04/10/2012

Terra árida

Dou às coisas uma importância que elas não têm, insisto em querer ter todas as respostas e entender todos os porquês. Às vezes finjo que me esqueço e que não faz mal todo o desconhecimento que me cerca e está ali mesmo no virar da página de um livro que nunca foi escrito. Depois lembro-me e os assuntos anões são agora gigantes. Não tenho pedras suficientes nas mãos para atirar. Eu que nunca matei um urso, nem lutei com um leão. Eu que tenho o meu cabelo castanho e não domino a arte da música. Eu que me afogo no mar do que não sei resolver. Eu que só precisava de entender, de saber um pouco mais de poucas coisas mais. Pegar nos assuntos inacabados, trancá-los em caixas de bronze, com ferrolhos de ferro e perdê-los. Em mim não há força. Quero esquecer que antes de hoje houve outros dias e semanas e meses e anos, num passado que se adensa no calor das horas. Tenho medo de me esquecer. Tenho medo de me esquecer-me. Ainda tenho medo de me esquecer-te. Há um instante de dor aguda que se prolonga num batimento cardíaco sem fim. Saber que não pensaste em mim, que eu não pesei nas tuas contas. As decisões e não-decisões arrasaram-me. Sou um campo de batalha que cheira a morte, carregada de mortos nas mãos. Tombaste. Tiveste mais do que um corpo, mais do que um nome, ainda assim tombaste. Vez após vez, tombaste. Somaste-te ao número das perdas que não recupero e levaste-me contigo. Pedaço após pedaço.  Se ao menos pudesses olhar para mim e ver aquilo em que me tornaste. Um lugar triste, um jardim seco, uma terra árida. 





[hoje é a última vez que me lembro assim. fazes-me falta, todos os dias, não sei bem porquê, mas hoje fico-me por aqui. quase um ano, como é possível...]

02/10/2012

Gastei as palavras


Gastei as palavras, não sei como explicar
o que o meu coração sente. É silêncio
que falo, é silêncio que escrevo. Presa num vácuo
que se dilata à medida que o meu corpo se
movimenta.
As folhas dos meus cadernos estão vazias, nos
dicionários os vocábulos têm cores desmaiadas. Eu grito.
Sinto sentimentos que não sei definir, um cansaço
na alma e um peso nas mãos.
Não sei do que falo.
Eu não falo.
Tudo é silêncio árido, silêncio frio, silêncio
plúmbeo, silêncio que ensurdece.
Gastei as palavras. Não sei como explicar
o que o meu coração sente.
Silêncio.




Para ti, minha querida ilha perdida no meio do oceano.

01/10/2012

Correspondência Íntima - IV

O mês de setembro é como se fosse janeiro para mim, comecei um novo ano. I'm back to basics. Querer ser como toda a gente e agir como toda a gente não me fez mais feliz, só me trouxe deceções e sofrimento, pelo menos, como eu era, era feliz. Quero muito voltar a esse estado de inocência e crença, a essa felicidade. Acredito que vá no bom caminho, tenho-me sentido muito feliz nestes dias. Em resolvendo um último assunto pendente que tenho, fico tranquila.


Nada de paz podre. Odeio guerras frias.

28/09/2012

Esta noite

Esta noite,
sonhei-te nas mãos.
As minhas mãos acordaram cansadas.
E tristes.

27/09/2012

O escritório da minha mãe



A minha mãe anda há anos a sofrer por não ter o cantinho dela, para arrumar papéis, os livros, pôr o pc, tratar das suas coisas. Já perdi a conta dos espaços da casa que ela tentou ocupar e das soluções (todas fantásticas, oh! oh!) que inventou, tão só para se frustrar a casa passo. Da última vez, enfiou uma estante velha na sala e só consegui de lá tirar aquilo porque me comprometi a mudar os móveis todos do espaço e a dita tinha de ficar de fora (por acaso a sala ficou muito mais bonita, arejada, luminosa e espaçosa).

Que fazer? Pois bem, como casa da aldeia que se preze, há sempre uma sala e uma cozinha que estão lá para enfeitar, cá em casa há uma cozinha só para inglês ver que está dividida por um balcão e que acaba por criar uma espécie de saleta. Ora, pensei, pensei muito e descobri a solução.

Reuni uma série de elementos que ligassem uns com os outros e tornassem o espaço acolhedor: os cortinados a imitar o antigo, a capa do sofá individual em tons cru, o móvel lacado e pintado à mão com anos e anos, com os livros dela, os cds e tudo mais, o candeeiro do teto que tirei da sala de baixo e pus ali por fazer muito mais o estilo do espaço e o resultado foi um canto muito agradável.

Faltava só a mesa de trabalho. Desviei uma mesa horrenda com camilha, mais os adereços e um candeeiro que a minha mãe tirou do quarto. A minha avó deu-me outra cadeira igual à que tenho em casa, pelo que a restaurei e trouxe para cá. Ainda assim, a mesa, meus caros, aquela mesa dava-me cabo dos nervos.

Ontem, numa inspiração pós-almoço, mandei a camilha larvar-se no programa das lãs e pintei a mesa de branco. Adorei o resultado. A mesa que era tão canastrona ficou elegante e bonita à vista e ao toque. Até um baldinho do lixo lhe fiz. Peguei num balde de plástico, numa sobra de tecido cortada de uns cortinados, forrei o balde, pus aquela fita que andava lá perdida (não sei fica lá, não sei) et voilá!!!

Qual foi a reação da mãe, digam lá? Ah que bonito. Agora vou comer que estou cheia de fome. Eu mereço... -.-

26/09/2012

Correspondência Íntima - III

A minha casa ganhou três velharias novas: a mesa do meu avô, uma cadeira da minha bisa e mais um garrafão de vidro da outra bisa. Tudos coisas a rondar os 100/200 anos, coisa pouca. A entrada já foi mudada outra vez, agora está lá a dita mesa, com a dita cadeira e a minha máquina de escrever em cima. Mesmo a pedir que as pessoas se sentem e escrevam o que lhes vai na alma, ou na ponta dos dedos, às vezes há coisas que precisam de ser escritas e que escapam ao controlo da mente. 

É o corpo a ditar a direção, a emoção a sobrepor-se à razão e a verdade a ser conhecida quando menos se espera.


Et à ton réveil la vie reprend son train

Fondu au noir - Coeur de Pirate


Fondu Au Noir - Coeur de Pirate
Dors, le mal est passé et tu entres dans la danse
Le pire de côté, tes rêves entrent en cadence
Tu sèmes le bonheur à chaque pas que tu fais
Et à ton réveil la vie reprend son train.

Certes tu passe comme de l'air, dans un monde sans musique
Dépourvu de tes nuances, un peu trop spécifiques
Tu nages en douleur et il est presque temps
De fermer les yeux, dans la mort qui t'attend

Et si ça fait mal c'est parce qu'il comprend pas
Qu'une mine loge dans ton coeur depuis longtemps
Et si ça fait mal c'est parce qu'il te voit pas
Alors que ton sourire enfin s'éteindra.

Dors le mal est passé, il te rattrapera pas
Le souffle coupé, tu n'es plus son appât
Ta peine s'est fondue au délire des autres
Qui oublieront bien vite que tu n'es plus des nôtres


As deambulações continuam e as pérolas estão em todo o lado.