30/11/2011

Quando a ficção é só isso, ficção, experimenta-se a libertação



- Tu non hai mai conosciuto Nicola.
- Vostro cognato?
- Sì, il fratello di mio marito. Ho passato con lui tutta la vita. Stava con me anche quando non c'era. Nella mia testa io dormivo con lui e con lui mi svegliavo la mattina. Tutti questi anni non ho mai cessato di amarlo. E' stata una cosa bella, ma insopportabile. Gli amori impossibili non finiscono mai. Sono quelli che durano per sempre. *
 Nonna, nel film Mine vaganti'(2010)

 Não é segredo para ninguém o que tem alimentado este blogue desde o início, uma história que correu mal (mais certo é dizer que nem correu, talvez se tenha apenas arrastado) e que deixou um sentimento que parecia não ter forma de desaparecer.

Nos últimos meses, apavorou-me a ideia quase certa de que teria de sofrer isto a vida toda. Cada vez que pensava estar perto de me libertar descobria estar apenas mais embrulhada.

Há algum tempo atrás, poderia dizer que esta citação me definia, agora já não. No dia em que vi o filme e vi esta cena, ela não foi mais do que uma cena, um pedaço de ficção que já não tem eco na realidade.

Acho que isso quer dizer que estou livre.




*
- Tu não chegaste a conhecer Nicola.
- O seu cunhado?
- Sim, o irmão do meu marido. Vivi com ele toda a minha vida. Estava comigo mesmo quando não estava. Na minha cabeça dormia com ele e com ele acordava de manhã. Todos estes anos não cessei de o amar. Foi uma coisa bonita, mas insuportável. Os amores impossíveis nunca acabam. São aqueles que duram para sempre. 


28/11/2011

Património i material?

O Fado foi elevado a Património Cultural Imaterial. Parece-me bem, aliás, parece-me muito bem.

Para quem não sabe o que isto quer dizer e não quer fazer fraca figura durante a leitura dos muitos textos que se vão espalhar pela blogosfera e poder comentar com conhecimento de causa, cito-vos a página da UNESCO:

considera-se património cultural imaterial as práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões – bem como os instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados – que as comunidades, os grupos e, sendo o caso, os indivíduos reconheçam como fazendo parte integrante do seu património cultural.

O património cultural imaterial
manifesta-se nos seguintes domínios:
a) Tradições e expressões orais, incluindo a língua como vector do património cultural imaterial;
b) Artes do espectáculo;
c) Práticas sociais, rituais e eventos festivos;
d) Conhecimentos e práticas relacionados com a natureza;
e) Aptidões ligadas ao artesanato tradicional.

Ora, eu sou relativamente fã de fado. Na verdade, gosto mais do dito fado canção que do fado tradicional, não sei bem explicar porquê. Não que isso seja relevante.

Para celebrar o facto (com c, porque o novo AO assim nos diz), uma homenagem a Amália, na voz de Dulce Pontes e na música do grande Ennio Morricone.

23/11/2011

I'm having one of those days

em que não tenho vontade de fazer nada.
Quando digo nada, é nada mesmo, rien, nulla, nothing, nada...

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 @

Estou cansada de estar horas em frente ao PC a pesquisar, planear, organizar, desenvolver projetos que nem sei se se vão realizar, mas que também não podem ser deixados para a altura da possível execução porque depois não fica nada bem feito (e eu detesto coisas feitas em cima do joelho).

Deve ser cíclico, o necessário cavado que vai desencadear mais um pico de trabalho animado e produtivo.

Por agora, vou desconectar tudo o que me liga ao mundo, e vou fazer qualquer coisa, talvez vá à fonte (acabou-se a água) ou vá mudar as plantas ou vá pintar a porta da frente da minha casa. Tudo serve para não ter de pensar que está uma pilha de documentos descarregados e a precisarem de ser organizados.

17/11/2011

Vamos lá a mexer que está frio.


Beautiful Lie - Yoav

Yesterday, today, tomorrow
Fade away like frozen photographs.
Remember, forget
The stakes, the ways you take,
The ways you make the moments pass.
For every regret,
I tell a beautiful lie.
And I would die if you find out.
I tell a beautiful lie every time that I
did not open up my mouth.
All the same, it's a game,
it's a play, it's a war,
it's a shame that we're always fighting for.
I don't mean to cast no blame,
I don't intend to pretend, I could, never loved you more.
But in the blink of an eye, everything you ever knew can change
And it's a beautiful lie if you think everything will always stay the same.

Babe.
My babe.
You got a secret - it's starting to show.
My babe.
Sweet babe.
How long can you keep it?
How far would you go?
You tell a beautiful lie.
You tell a beautiful lie.
And it's going to, it's going to drive you crazy.

Babe
My babe.
It's starting to show.
My babe.
Sweet babe.
How far would you go, go, go to tell a beautiful lie?
Yesterday, today, tomorrow
Fade away like frozen photographs
Remember, forget
Forever.
Lie.

Beautiful lie.

14/11/2011

Ai sou? Ai sou? Toma!

Nunca gostei que pressupusessem o que quer que fosse sobre mim.
Concordo que é difícil que isto não aconteça, eu mesma o faço, mais não seja prendo-me a padrões e baseio-me em acontecimentos passados. Certo, é inevitável. Mas também é inevitável que, à medida que o conhecimento sobre a outra pessoa aumenta, os pressupostos sejam postos de lado, reafirmados, substituídos, revistos à luz do que acontece em tempo real e se vê.

Agora, partir de um pré-conceito, teimar nele, usá-lo para justificar o que quer que seja e tomá-lo como verdade absoluta, por muito que eu tente mostrar que não é assim, isso, meus caros, é que me faz morder as bochechas por dentro e renascer a mulher das cavernas que há em mim.

Já que tenho a fama, ao menos gozo por uns instantes do proveito.

12/11/2011

mas se quiseres eu paro de te mentir...


Se tu quiseres, quando quiseres - Adriana

Se tu quiseres, quando quiseres
dou-te mais um comprimido
até apanho os cacos de vidro
e deixo-te adormecer.

Se tu quiseres, quando quiseres
diz-me a que horas te chamo
e até finjo, sempre, que te amo
que não te quero perder.

Dou-te a chave de casa
fico a ver-te partir
mudo o lençol da cama
mas se quiseres eu paro de te mentir...

Se tu quiseres, quando quiseres
empresto-te a minha vida
e fico só aqui estendida
ou danço só para ti.

Se tu quiseres, quando quiseres
chamo-te "meu amigo"
fujo agora daqui contigo
posso até morrer por ti.

Dou-te a chave de casa
fico a ver-te partir
mudo o lençol da cama
mas se quiseres eu paro de te mentir.

08/11/2011

Do pretérito perfeito ao mais que perfeito, vai um hiato de tempo que não tem medida exata

"preferia nunca ter sabido que dor era esta e voltar ao que era antes"


Este foi o desabafo de um amigo, referindo-se necessariamente à sua situação de possuidor de um coração em pedaços, que lhe afigura não ter qualquer outro préstimo a não ser o de ser posto no lixo com um punhado de objetos e outras tantas lembranças.
Este será possivelmente o desabafo generalizado de todos os que amaram e a um qualquer momento deixaram de ser amados de volta e não se conformam com isso.
Este já foi o meu desabafo.

Pergunto-me muitas vezes se este sofrimento não poderia ser evitado, se não passamos por ele por negligenciarmos a nossa intuição, cegarmo-nos propositadamente para os indícios que se espalham à nossa volta, por acreditarmos, sem um quê de arrogância, que nós somos diferentes, esquecendo que feitas as contas somos todos iguais.
Eu podia ter evitado, aliás, eu sabia que estava prestes a iniciar um jogo perigoso que me mudaria irreversivelmente, ainda assim, joguei.

Agora que o tempo segue o seu curso de se arrastar pelas horas e de me arrastar com ele, afastando-me daquele momento, e o distanciamento me permite olhar para as coisas com olhos muito mais meus do que os outros que usei antes, vejo que no quadro mental de tudo o que vivi estão muitas manchas, borrões de tinta que já não sei dizer o que são. As palavras vão-se confundindo, as datas vão-se esquecendo e a lembrança dos sons, cheiros, gostos, carícias e carinhos turvam-se ao ponto de, às vezes, eu duvidar que realmente aconteceram.

Não acredito que se consuma na totalidade, inclino-me mais a acreditar que a pessoa que amei é uma presença constante, mais ou menos sentida, mais ou menos definida, ainda assim presente. Aquilo que me mudou não pode tão só esfumar-se. Não seria honesto, não seria justo, para nenhuma das partes. Quereria dizer que não tinha tido qualquer significado, que tinha sido mais um nada que não vale o esforço de lembrar.

E eu mudei tanto, sou hoje tão diferente. Como posso eu então querer voltar ao que era?




[este texto foi escrito propositadamente na primeira pessoa do singular, em vez do plural, porque há dias em que temos de pôr de parte os plurais majestáticos e assumir o que pensamos/sentimos]


Nunca me deixes - Never let me go

 Há filmes assim, tão delicados e aparentemente simples que não podem deixar de nos deixar a pensar.