08/11/2011

Do pretérito perfeito ao mais que perfeito, vai um hiato de tempo que não tem medida exata

"preferia nunca ter sabido que dor era esta e voltar ao que era antes"


Este foi o desabafo de um amigo, referindo-se necessariamente à sua situação de possuidor de um coração em pedaços, que lhe afigura não ter qualquer outro préstimo a não ser o de ser posto no lixo com um punhado de objetos e outras tantas lembranças.
Este será possivelmente o desabafo generalizado de todos os que amaram e a um qualquer momento deixaram de ser amados de volta e não se conformam com isso.
Este já foi o meu desabafo.

Pergunto-me muitas vezes se este sofrimento não poderia ser evitado, se não passamos por ele por negligenciarmos a nossa intuição, cegarmo-nos propositadamente para os indícios que se espalham à nossa volta, por acreditarmos, sem um quê de arrogância, que nós somos diferentes, esquecendo que feitas as contas somos todos iguais.
Eu podia ter evitado, aliás, eu sabia que estava prestes a iniciar um jogo perigoso que me mudaria irreversivelmente, ainda assim, joguei.

Agora que o tempo segue o seu curso de se arrastar pelas horas e de me arrastar com ele, afastando-me daquele momento, e o distanciamento me permite olhar para as coisas com olhos muito mais meus do que os outros que usei antes, vejo que no quadro mental de tudo o que vivi estão muitas manchas, borrões de tinta que já não sei dizer o que são. As palavras vão-se confundindo, as datas vão-se esquecendo e a lembrança dos sons, cheiros, gostos, carícias e carinhos turvam-se ao ponto de, às vezes, eu duvidar que realmente aconteceram.

Não acredito que se consuma na totalidade, inclino-me mais a acreditar que a pessoa que amei é uma presença constante, mais ou menos sentida, mais ou menos definida, ainda assim presente. Aquilo que me mudou não pode tão só esfumar-se. Não seria honesto, não seria justo, para nenhuma das partes. Quereria dizer que não tinha tido qualquer significado, que tinha sido mais um nada que não vale o esforço de lembrar.

E eu mudei tanto, sou hoje tão diferente. Como posso eu então querer voltar ao que era?




[este texto foi escrito propositadamente na primeira pessoa do singular, em vez do plural, porque há dias em que temos de pôr de parte os plurais majestáticos e assumir o que pensamos/sentimos]


12 comentários:

  1. Esse teu amigo é Sábio.
    O mudar? mudar ninguém muda, evoluir, sim evolui-se mas dadas estas circunstancias adversas quem não te garante a ti que estás numa evolução lenta? Quem te garante a ti que se não tivesses passado pela dor e luto de perda não tinhas evoluído muito mais.

    Aprende-se com a dor, mas na minha opinião evolui-se muito mais com a felicidade, e quando a felicidade nos é retirada a evolução torna-se muito mais lenta.

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  2. O meu amigo é um fofo!

    Não acredito que seja uma evolução, a evolução pressupõe aperfeiçoamento e não me parece que as coisas, ou as pessoas, atinjam esse patamar.

    Continuo a defender que há uma mudança, ninguém permanece o mesmo depois de passar por uma experiência de amor-perda-luto.

    Concordo que estaria diferente, talvez mais feliz, mas não sei se me conheceria tão bem.

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  3. Eu sou da opinião que as perdas, sejam elas de que natureza forem, nos fazem evoluir, aprender um pouco mais acerca de nós e dos outros. A velocidade dessa evolução é relativa, terá essencialmente haver com a personalidade e maturidade de cada um. Mas se reflectirmos e ponderarmos bem acerca dessas perdas aprenderemos algo de certeza, como testarmos e definirmos os nossos limites do dar e receber, do amar e ser amado, do que é tolerável ou inaceitável. Isto permite-nos, em futuras situações, redefini-los. Expandir a entrega ou reduzi-la. A evolução não é apenas o "mais", também comporta o "menos"...

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  4. A minha opinião, e falo por experiência própria, é que as pessoas nunca mudam. Podem passar por fases mas serão sempre aquilo que sempre foram.

    P.S.
    E já tens anúncios!

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  5. Senhor Geninho:
    Testar limites parece-me ser a chave do processo todo. Quando pensamos que já não aguentamos mais, descobrimos que afinal ainda aguentamos mais um bocadinho.

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  6. Daniel:
    Tudo o que te posso dizer é que eu não sou a mesma. Mas isto é a minha experiência.



    Pois que tenho, só que ninguém clica e não estou a ver retorno da disponibilização do espaço... (-.-)

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  7. Resumindo,

    Quanto a mudarmos, faz-me lembra uma frase do Salvador Dali que era mais ou menos assim:

    Continuei sempre a ser aquele catalão ingénuo, no corpo do qual vivia um rei.

    ;)

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  8. Sim, há sempre uma parte de nós que permanece, caso contrário não seria antes uma descaraterização em vez de uma mudança?

    Mas eu estou longe do que era antes de ter embarcado nesta loucura.

    ;)

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  9. A conversa fica tão erudita assim, não ficou... lol

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  10. Estou cansada das perdas, dos lutos e das dores... Dou por mim a querer arriscar tudo, indiferente ao sofrimento que poderia ser não querer arriscar nada. Parece que não nos safamos dele e assim pode ser que algum dia tenha sorte e não sofra ;)

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  11. Anita:
    É isso mesmo. Parece-me mesmo que não nos livramos dele, quer seja porque não arriscámos ou não temos nada, quer seja porque o fizemos e partimos a cara.

    Melhor tentar, a ver se pega. :)

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