.

02/12/2016

Agradecimento póstumo (com dez anos de atraso)

Finalmente, tenho de te agradecer. É um agradecimento que chega com dez anos de atraso, mas é importante que fique registado. No dia em que partiste, amontoaste, embrulhaste em papel de jornal, implodiste e explodiste o meu coração, disseste que era melhor assim, que ficaria melhor sem ti -- quero que tenhas uma vida porreira e não não uma vida como a minha. E desapareceste no ar, como se não passasses de uma imaginação feita nuvem, bem ao gosto dramático das personagens dos maus romances. Agora que passaram dez anos e eu já me refiz da tua maldade, mesmo tendo escavacado com o coração mais uma vez ou duas, pelo caminho, posso dizer com toda a propriedade que tinhas razão. Tinhas toda a razão, na verdade. A minha vida não é como a tua e finalmente está porreira. Melhor que porreira, bem para lá disso. Agradeço-te, por isso, porque viste o que eu não via e não me impediste de alcançar o melhor que alguma vez tive. Aqui entre nós, que ninguém nos lê, não trocava um segundo do que tenho agora por qualquer bocadinho do passado. Podes voltar para o horizonte onde te desterraste, não preciso de ti, tenho planos para os próximos cinquenta anos.